VIVER

' Viver é muito perigoso...
Porque aprender a viver é que é o viver mesmo.
Travessia perigosa, mas é a da Vida.
Sertão que se alteia a abaixa. O mais difícil não é um ser bom e proceder honesto.

Dificultoso mesmo, é um saber definido o que quer e ter o poder de ir até o rabo da palavra. '
[ Guimarães Rosa ]

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domingo, 19 de setembro de 2010

PRESSÁGIO

O sentimento adonou-se de mim e com tato , pude apalpar-te: existes.[( " Já falei tantas vezes, do verde dos teus olhos. todos os sentimentos me tocam a Alma, alegria ou tristeza... )
Cheio de Esperança fica o Afeto, porquanto caminhamos e encorajados optamos por permitir ao Coração que sinta, muito; que sinta, mesmo.[ Houve um tempo em que ficou o Afeto cheio de mágoa, dado ao sentir, por vezes, causar ferida.]Te encontrei. Porisso, nada me impediu de, ao te pressentir, permitir que o sentimento doce me adentrasse o peito. (...mas agora é o balanço e essa dança nos toma, esse som nos abraça, meu amor- Você tem a Mim...)
' Existirmos, a que será que se destina ?' Caetano teve a ousadia de questionar.Parei de perguntar à volta disto e optei faz tempo, por ter a audácia de Existir como começo e meio, desinteressada no fim . Existir hoje, agora, então . Crer.
Pressentindo a acreditando, não se quer fincar a bandeira, menos ainda demarcar território junto ao Outro . Ao contrário , por se ter ciência de que Propriedade limita, vestimo-nos - e ao Outro - de Liberdade .( O teu corpo moreno, vai abrindo caminhos, acelera meu peito e nem acredito no sonho que vejo. E segui dançando e tudo rodando: parece que o mundo foi feito pra Nós...)
Ultrapassa o saudável e chega a ser irônica, a audácia da consciência de Nós mesmos, que presumimos nos conhecermos. Sermos Nossos, conduzirmo-nos .Tarefa primeira da Auto- Estima, é termos certeza de que existe sempre algo de inédito, desconhecido. Porisso, misterioso , enquanto não descoberto. ( me abraça e me aperta, me prende em tuas pernas, me prende, me força, me roda , me encanta, me enfeita num beijo.)
Surpreendi-me , com o que senti ao te encontrar e disse: hora destas eu broto, hora destas eu vingo .Eu , peito seco, terra árida e de repente! senti-me fértil, úmida . Pronta. Capaz.( E é pura beleza essa música - sente!- e parece que a gente se enrola, corrente e tão de repente, Você tem a Mim .") A Festa - Maria Rita ]
Aquele ABRAÇO.
Maristela

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

TOCOU FUNDO

Eu recebi de um amigo recente, um dvd cujo título já me chamou a atenção : ‘ Viola Urbana ‘. Assim que entrei em casa fui ouvir. Porisso mesmo, o título: porque tocou fundo.
Foi um show em Belo Horizonte, no grande Teatro Palácio da Artes, com diversos e surpreendentes – pra nós, daqui, infelizmente - intérpretes que se ancoraram numa viola caipira-cidadã , como foi citado . Realmente, um trabalho encantador, entoando a verdadeira música sertaneja . Cantam e tocam com a voz e a alma; show que não tem preço.
Pode-se perceber , o quanto o sertanejo está ligado ao Coletivo , sob diversos prismas .Foi nítido que a platéia sentiu , durante toda a apresentação, a Parceria/Interação/Admiração e Respeito , que existe entre eles muito fortemente ali, também ali. Aliás, isto ficou bem firmado , quando no final, todos os intérpretes ( estou tentando substituir esta palavra simplesmente por ‘ cantores’ e não estou conseguindo - daí a estar sendo repetitiva ) entoaram ‘ O Menino da Porteira ‘ ( Tedy Vieira / Luizinho); isto porque esta música, traz em melodia o significado de ‘ Amizade ‘ /Fraternidade . Como faço questão de lembrar, é a história ( é do tempo que ' estória' se escrevia assim...) de um menino que sempre corria pra abrir a porteira; e sempre pedia ao boiadeiro passava que tocasse o berrante. Porisso ,quando certa vez ele encontrou a porteira fechada,surpreendeu-se . E então, soube pela mãe ,que o filho tinha sido morto por um boi . Numa atitude de desalento e inconformismo – mesmo que a boiada estourasse – ficou definido : o berrante, ali , ele não tocaria mais . Amizade e carinho, misturados à poeira e melodia.
A mesma Amizade que o Palácio das Artes juntou no grande teatro, naquela noite. E João Araújo confessou-se, na interpretação da música ‘Menino da Cidade’ . Importante : a letra não se refere a Menino de Rua - que embora não seja o sinônimo , vive presente . Esta , expõe um Menino da Cidade que tem fome do campo, sendo sempre amparado pelo conforto da viola. [“Saudade do que não vivi ... todo menino da cidade, do mato não sabe o que diz ... “].
Ao receber Chico Lobo , João Araújo cita que foi esse amigo quem definiu ‘ o que, exatamente ’ seria a ideia comentada, quanto falou com ele acerca do que pretendia com o trabalho : Chico frisou que teriam que ser reunidos muitos violeiros. E assim foi feito, com a ressalva significativa de que os participantes do espetáculo, mostraram mais um diferencial ; cada um deles interpretou sua música com uma peculiaridade que vai da voz à riqueza com a qual acolhem a viola,extasiando a plateia . [ “ Meu coração sabe sentí, cheiro de roça pelo ar, café que cabô de saí... Terra molhada vai chovê, estrume a terra vai parí ... ] . A esta estrofe ressaltarei , tentando sublinhar a metáfora : a Planta surge realmente da fecundação , na terra molhada ; a terra, úmida , é o ventre da Natureza . É a benção para a Vida , que ali transcorre, seguindo seu curso em silêncio e harmonia .
En – cantaram , certamente. ‘ A Música é como o Pão : elementar, santo e de todos ‘, bem disse Tristão da Cunha . Em resposta , por gratidão à voz e ao instrumento – e também,à letra , a Música acolhe e conforta . Aborda temas/ sentimentos , questiona, discute, debate, revela . Desta forma, só resta dizer que a Música avaliza os conceitos/valores que são imprescindíveis para a qualidade da Vida.
E o sentimento com o qual o público , coletivamente , entoa as letras, também é por demais valioso. Existem entrega e consentimento , afinados . Naquele momento é um elo entre o Cantor ( consegui!) e a Plateia
- como se fosse um se pacto entoado; e depois o aplauso, consonante e mútuo.
São muitos os momentos que também junto ao aplauso ,a lágrima rola no rosto : é a emoção daquele não cabe no olhar e escorre pela face . É a mesma lágrima de um sentimento de dor , entretanto, não fere e principalmente, não se contém e entrega-se ao que ouve . É uma dor que recompensa o valioso sentimento de entrega. [ “ Quando eu tocá meu violão e as água dos oi caí, não ligue, não é nada , não . Saudade do que nem vivi ... ]
Com certeza, não difere da minha, a opinião de muitos que tiveram o privilégio de estar ali dentro . Nas feições estava claro o sentimento de conivência, de parceria. Eu creio que é esse o significado de uma palavra curta e intensa, que toca a gente quando ouvimos a um 'Hino'.Muitas da músicas interpretadas , foram cantadas como tal - algo que exalta e toca fundo. Tem-se literalmente orgulho da terra, quando se escuta. E foram muitos os hinos sertanejos e orgulhosamente nacionais.
Porisso, naquela noite, esta palavra que muitos significados tem, ainda que calada,certamente adormeceu no coração de muita gente.[ " E eu na rede da varanda,meio sonha,meio acorda , sem pressa de dormí ( Menino da Cidade - Viola Urbana /Letra : João Araújo.)]