VIVER

' Viver é muito perigoso...
Porque aprender a viver é que é o viver mesmo.
Travessia perigosa, mas é a da Vida.
Sertão que se alteia a abaixa. O mais difícil não é um ser bom e proceder honesto.

Dificultoso mesmo, é um saber definido o que quer e ter o poder de ir até o rabo da palavra. '
[ Guimarães Rosa ]

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domingo, 21 de setembro de 2014

MADRUGADA DE ACORDES


                               




      Você já está acostumado, meu Caro Leitor, às confissões que aqui te faço; contudo, acerca desta não te peço segredo, como em tantas outras sempre contei com seu absoluto sigilo e peço-lhe que não comente com ninguém. Ao contrário, esta você pode espalhar, pois minha intenção é relatar e que os ouvidos lá fora escutem - bem . Isto porque ninguém tem ciência da interpretação de José Mayer - mais esta !
       Noite destas, tive uma insônia que tornou a madrugada de quinta-feira, de primeira. Isto aconteceu porquê, sem sono, liguei a TV e lá estava José Mayer, no Programa do Jô,comentando acerca da peça ' Um Boêmio no Céu'. Este trabalho proporciona-nos a honra de conhecer mais acerca de Catullo da Paixão Cearense,músico/ poeta/escritor/intérprete/ boêmio , papéis perfeitamente cumpridos, com a magia que é bem própria dos Artistas. Foi uma Madrugada de Acordes, como nominei - uma das mais lindas madrugadas que já tive.
      E o mais surpreendente disto, foi a voz que entoou a pauta musical, nas letras ricas , num tom de voz ímpar e até então - melodicamente - por nós desconhecido. O ator José Mayer, já merecidamente reconhecido nos palcos e na televisão, desta vez , demonstra uma interpretação vocal/musical tão valiosa ,que deixou a Plateia extasiada. Sua atuação foi efusivamente aplaudida , demonstrando na palma da mão
 o encantamento de quem teve o privilégio de ouvi-lo . ( " Ontem ao luar, nós dois em plena solidão, tu me perguntaste, o que era a dor de uma paixão.Nada respondi. Calmo assim fiquei!Mas fitando o azul...")
      Não sei dizer-lhe por quantas vezes, virtualmente, busquei o Programa do Jô e vi/ouvi/revi a matéria; bem como enviei-a a todos os meus amigos, que não tiveram o privilégio de assistir, naquela noite. E ainda assim - ou por isto - não me contive. Sabendo que neste domingo seria a última apresentação da temporada, não hesitei e embarquei para São Paulo, para assistir a 'Um Boêmio no Céu'. ( ...do azul do céu, a lua azul eu te mostrei...Mostrando a ti,dos olhos meus correr senti, uma nívea lágrima e assim, te respondi".)
        Eu sempre tive uma relação de Amor com o Teatro. Nas inúmeras e maravilhosas peças que já vi, por muitas vezes, aconteceu de ,inesperadamente, sentir-me no palco. De um jeito que só eu sinto( acho que isto eu não deveria contar pra ninguém, então aqui te peço segredo, amigo Leitor) , dentro de mim, por vezes, invado o Palco e tenho que trazer-me de volta: meu sentimento é aquele que habita o Ator. Sou Ele .
 A Alegria, a dor, o Medo e inúmeros outros sentimentos ali interpretados, se apoderam de Mim . Acontece, outras vezes, de o meu Eu entremear-se ao Outro e sentir que sou Plateia, não consigo mais ser Singular .É isto, torno-me Plural e sinto mais,sinto muito. Sou Nós. Talvez isto aconteça, em razão da Psicologia ensinar-nos acerca da Inversão de Papéis: colocarmo-nos no lugar do Outro . Então,junta o que aprendi com ciência, quanto ao que sei com sentimento e aí...
       E assim foi , naquela noite.Foi exatamente assim, no início da peça,quando a voz do Ator adentra o teatro e ele surpreende a Plateia-passa por nós - caminhando em direção ao palco. Na abertura da peça , tal qual havia ocorrido no Programa do Jô, ele privilegia uma mulher ( sendo contraditória à linha na qual estou redigindo , escrevi 'mulher', em caixa baixa; guarde segredo também aqui, querido Leitor - foi por impura inveja minha. Como eu queria estar no lugar dela!) em pública serenata, olhando-a firmemente .Comovente. Galanteador. Romântico. Firme e contraditoriamente, Doce. Sedutor e ao mesmo tempo, terno. ( "A dor da paixão, não tem explicação! Como definir, o que só sei sentir!É mister sofrer,
para se saber, o que no peito, o coração, não quer dizer.")
        Seguramente, o ator José Mayer encontrou-se no papel que interpretou. Daí, a sintonia ,coerência, segurança e autenticidade com as quais incorporou Catullo ,poetica/musicalmente . Presumo que este seja mais um privilégio do Ator : ao estudar o perfil de quem interpretará, estende -se ,pela descoberta de Valores, Conceitos,Perfis . Através do papel, desvenda o mistério de múltiplas personalidades, aperfeiçoando-se, como Indivíduo. Pós-gradua-se em Ser.
         E aqui, é imprescindível que seja ressaltada, a forma com a qual o Poeta enaltece as Mulheres
 ( é, as Mulheres!!!) fazendo delas Estrelas às quais ele, humilde e perdidamente apaixonado, se rendia. Creio que na época, a Figura Feminina sequer podia sentir-se traída, dada à entrega do Poeta, de Corpo e Alma.
 E Nós, da Platéia , não tivemos outra alternativa  , senão sentirmo-nos lisonjeadas , apoiando Catullo, a Poesia , a Boêmia e a sua intensa capacidade de Amar. O Sentimento estendia-se do muito ao todas. (" Pergunta ao luar, travesso e tão taful, de noite a chorar, na onde toda azul,pergunta ao luar, do mar a canção : qual o mistério que há na dor de uma paixão ?")
        Só um privilégio o Ator não tem, este é só Nosso. Ele não possui a quase que sagrada , eu diria, condição de deixar o Intérprete ali atuando e por alguns segundos, ser Plateia; sentindo, assim a Emoção incontrolável que toma conta de Nós, comandando-nos deliciosamente. Somos tragados pela Arte,sem o desejo e o direito de resistirmos- felizmente!
        Concluindo, o trabalho ,advindo de muito empenho, pesquisa , determinação e lógica, redundou
 em algo absolutamente distinto disto. Transformou-se em horas de encanto e encontro com o Poeta, vivo;uma interpretação conjunta que enobreceu-encheu de Luz!- aquele espaço e em razão da interação , tornam Palco e Plateia, um só Corpo. ( "Se tu desejas saber o que é o amor e sentir o seu calor, o amaríssimo travor, do seu dulçor, sobe o monte à beira mar, ao luar,ouve a onda sobre a areia a lacrimar ! "'Ontem ao Luar / Catullo da Paixão Cearense)
         Em nome de inúmeras pessoas que assistiram a peça  ,sem dúvida, parabenizo aqui, de Amir Haddad - além de Dramaturgo, Diretor - a Vera Fajardo ( quase de A a Z) ;nosso agradecimento a toda a Equipe que proporcionou-nos este encontro com a Arte Cênica. Certamente, lá da lua, também encantado e comovido, Catullo os tem aplaudido e escondidinho, piscado para Vera Fajardo, que garimpou-o
.E que Amir Haddad  me perdoe( também peço segredo acerca disto que aqui uso, por ele citado), mas faço nossas as suas palavras, alterando um pouco: "Recebam Vocês, o nosso aplauso emocionado. Isto, por possibilitar que O Brasil descubra o Brasil em seu Universo Popular e porquê nossas fontes, estão vivas. Isto é obra da Arte , que este espetáculo - Espetáculo!- confirmou."

                                                                                                                   Maristela Dias da Cunha

 * Meu agradecimento a Francisco Accioly e Tereza Durante, os quais tive o prazer de conhecer.
  * Pós show de Oswaldo  Montenegro , sublimamos , ficamos a falar  somente de arte e jogamos fora
certos interesses que  como disse Hugo,´  faz com que o artista entregue os pontos´.E dado a comentários  posteriores pediram que eu atualizasse o artigo. Está aqui, pois.