VIVER

' Viver é muito perigoso...
Porque aprender a viver é que é o viver mesmo.
Travessia perigosa, mas é a da Vida.
Sertão que se alteia a abaixa. O mais difícil não é um ser bom e proceder honesto.

Dificultoso mesmo, é um saber definido o que quer e ter o poder de ir até o rabo da palavra. '
[ Guimarães Rosa ]

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terça-feira, 28 de junho de 2016

Connie ou Lennon ?

                                                   
                                               
                                               
                                                                  dedico a  Laura, cooper- Amiga,

                                                                                                   com toda a minha afeição .


Este material emociona a quem bate bem do Coração . Emociona mesmo.
Felizmente, recebi os dois juntos e fui me perguntar acerca de em quem eu votaria, se os dois estivessem num mesmo concurso . E decidi .
Connie é Anjo . Nasceu assim , há seis anos . Tem Luz própria - e brilha, ao mesmo tempo que ilumina. Contudo, é inerente a ela , ao contrário: creio que não tem como desfazer-se disto.
Até a forma , naturalidade/obviedade com a quais ela responde as perguntas dos jurados, firma isto . Nem sabe direito acerca do que está sendo perguntado e já afirma tudo ; naturalmente .
Connie inspira benção, Anjo que caminha, ao invés de voar . Pode, isto ? Anjos também andam... acabamos de descobrir isto agora. Quem assiste, não discorda. Quando terminamos de ver, emocionados, a gente se sente meio constrangido, por sermos tão questionadores,eventualmente céticos. Às vezes, somos até alheios a Deus ; simulamos que cremos . Ou pior, em nossa vida prática não exercemos o que nos propomos verbalmente, quando rezamos.O exercício da Solidariedade e Respeito . Amor ao Próximo, em nossas mãos, no cotidiano de nossas Vidas ? Melhor nem tocar no assunto .
A gente não vê o peso e valor - e Responsabilidade - sagrados de uma Prece , de falar com Deus. Falando mais sério: eu não sei se a gente , na prática, demonstra em atitudes, que crê N'Ele . Mas deixe-me voltar, que estou indo por um caminho perigoso.
Connie é terna - até o cacófago é pertinente.E ao vermos um vídeo como este,o tom da voz e rosto angelical dela, cala a nossa boca : Connie cheira Paz .
Com John Lennon, é diferente. O garoto doce e seguramente, agride a gente e aos jurados - com sorriso firme . Aqui cabe dizer: cala a boca deles.
A segurança com a qual ele adentra a pista e encara o propósito para o qual ali está, é realmente ímpar . E de forma singular, desde a ( falta de ) produção, ao argumento : ' embora conheça o material há pouco tempo, quem criou a coreografia, fui eu mesmo '. E fala de um jeito singular, repito, seguro e o que é pior ,ou  melhor : humildemente. ' La semplicità è la suprema  sofisticazione', disse Leonardo da Vinci. É isto.
Contudo, não me refiro à humildade que advém de um nível sócio-econômico menos acessível ; não. Cito a Humildade de quem é Realmente nobre. É exatamente isto, cheguei onde queria: John Lennon É nobre. Será coisa do nome, é isto, Deus ? * Quando Ele me responder, contarei aqui a resposta.Se bem que sinto até que não precisava desta pergunta . Acho que o nome Lennon denota riqueza . A gente ouviu isto muito bem.' Imagine ', adentrou muitas fronteiras.
Sabe,tem muito de Anjo também em John Lennon, com uma grande diferença. Com meu preconceito estúpido, presumo que ele venha de um local onde teria tudo para dançar naquele sentido pejorativo. E isto não aconteceu. Encarou a Vida de outro jeito e quer agora, expor sua arte e capacitação ao mundo . E mais: sem fim egoico .Ele poderia ter dançado de outro jeito e não deixou que acontecesse; optou pela arte do Corpo em movimento, num linguajar que é único , nele e dele.
' Dançou' , não . Ao contrário , angelizou-se. Outra descoberta, pois : Anjos dançam . [ Parênteses: detesto que tenham judiado deste verbo lindo, dando uma conotação pejorativa .] Acho dançar,verbo e prática sagrados. Nietzsche afirmou que só acreditava num Deus que soubesse dançar. Eu também .E tem outra citação interessante: ' A dança é a expressão perpendicular de um desejo horizontal', de George Bernard Shaw. Pura verdade. Dois corpos, juntos e que já vivenciam uma Relação, ao dançar, estão fazendo amor em público. A forma como se tocam, o movimento, o ritmo, faz uma doce denúncia da Relação.[ Me perguntei se eu não estaria sendo antagônica, juntando num só texto Deus e a sexualidade; mas não. A sexualidade também é sagrada. Quando conduzida saudavelmente, tem luz no encontro dos Corpos. Sem dúvida - tanto que é ali que a Vida é gerada.  ]
Inclusive a forma como John Lennon coreografou ' A Morte do Cisne', do início ao fim, foi por demais inteligente e criativa. A cada movimento da bailarina consagrada Anna Pavlova, Lennon traduziu com a irreverência do Break, uma das vertentes do Street Dance, que explodiu nos EUA em 1981 e se expandiu mundialmente ; Sendo que, no Brasil, foi devido  a sua leitura corporal,que os dançarinos incorporaram novos elementos de dança.O Street Dance, apesar de denominação genérica, no Brasil abrange a todos os estilos sem distinção. Houve uma mistura em tal grau, que a intenção das coreografias passou a ditar o estilo da dança.E é exatamente isto do 'ditar', que dá corpo ao 'impor', aqui : 'A Morte do Cisne' foi um trabalho consagrado no mundo, interpretado numa linguagem ao avesso, criado numa coreografia sem leitura profissional do significado daquela obra. Foi ousadamente criada com o sentimento de Amor pela Dança e da Arte no movimento corporal e assim, maravilhosa.
Por  isso, eu fico com ele. John Lennon já tem caminho andado, muita coisa deve ter visto e encarado, num outro tom , duro : mas optou pela Vida em movimento, o controle do corpo em compasso via Arte ,o tom da Música e o gesto ritmado, frisado pelo passo traduzido. Graças a Deus, John Lennon dançou - com passo nobre . A pequena Connie ,anjo que entoa a canção, sai voando desta estória  e nós trancafiamos bem os dois , em nossos corações . Afinal, é ali que pulsa, bem  latente  e sedenta de valores , nossa memória manifesta .



* Quanto aos jurados, só um deles, postou-se do início ao fim, com a ética que é própria - ou deveria ser - àquela mesa.Os demais, ao chegarem em casa e desabotoarem a roupa , ao tirarem a maquiagem e olharem-se no espelho, certamente, ficaram com vergonha de si mesmos e dos comentários, quando o garoto apresentou-se. Eu ia usar a expressão ' dançaram', mas me recuso. Certo é que, escorregaram feio e tomara que isto tenha servido para amadurecê-los, pois carecem .Para um, nota 10, para a Outra, nota 7 e para o 'Outro' , nota 6. Vale lembrar que a lágrima escorrendo deste , no rosto de um deles, lavou um pouco do desprezo na face, quando John entrou.

quinta-feira, 3 de março de 2016

GRITO POR CARNAVAL

Sabemos que o Carnaval faz parte – uma parte boa – da nossa história, da história da nossa terra . Tem grande e rico significado para a Cultura brasileira.Isto é indiscutível.
Pertinente seria discutir se isso que vem ocorrendo de muitos anos para cá, pode ser chamado de Carnaval. Se alguém disser que é, eu digo: não é verdade.
Há muitos anos, o ginásio do Praia Clube – inúmeros uberlandenses são testemunhas – recebia pessoas, blocos que se fantasiavam de uma Alegria contagiante; dava para tocar com as mãos. O próprio ginásio, calado, aguardava os foliões que adentravam o clube. Eram Mágicos, Bailarinas, Palhaços – e nos rostos havia a magia, sim. As Bailarinas dançavam a Alegria, sim e os Palhaços vestiam no Corpo e na Alma a Fantasia, sim ( “ ...e um dia, afinal, tinham direito a uma alegria fugaz, uma ofegante epidemia, que se chamava Carnaval” – Vai Passar / Chico Buarque)
Já passou, tento me convencer – sem querer - de que já passou . Mas quem vivenciou esta época, é testemunha em carne viva ,da qualidade daquela festa, da quantidade daquela Vida. Com a Alegria estampada nos rostos, com confete e serpentina, os corpos dançavam as músicas apropriadas, naqueles quatro dias incansáveis – sem falar nas matinês- nas quais muitos de nós estávamos presentes, cantando e dançando a Vida, encantada que é ( é, sim).
Uma reportagem do Fantástico, há aproximadamente quatro meses, mostrou um grupo de trigêmeas brasileiras que estão brilhando na Europa, cantando as verdadeiras marchinhas de Carnaval. O mundo tem aplaudido e elas estão fazendo sucesso lá fora; contagiando com um ritmo que é só nosso e tentando, com o Coração, fazer com que os pés e os quadris dos Estrangeiros dancem com uma cadência que é só nossa.
Mudar o ritmo da história do Carnaval no Brasil, guardadas as devidas proporções, é alterar a nossa história cultural, alterar nossa bandeira. A Sociedade e as Instituições que lidam com a Música, deverão entender isto. Uma verdade, a esse respeito, já foi dita: “ A Música é como o Pão: elementar, santo e de todos” (Tristão da Cunha). E a história da Música, dos eventos regionais e nacionais, não pode ser negligenciada. História, inclusive musical, faz parte do passado ,está presente e sempre dará futuro.
Restou uma ‘globeleza’ que não ginga com a mesma cadência que talvez seja inimitável – Valéria Valenssa . E muito menos, quase nada, traz as cores trabalhadas no corpo, tendendo mais à erotização e não à Arte . O que deveria ser diferente, porque a Globo , naqueles poucos segundos valiosos, prefacia um trabalho valioso: os Desfiles das Escolas de Samba.
E as E-S-C-O-L-A-S são assim denominadas porque ensinam, através de um ritmo genuinamente brasileiro, temas que enfatizam o valor do nosso País e as riquezas nele contidas. Assistindo há pouco o desfile de uma das escolas paulistas, tenho que sublinhar o que foi dito pelo Comentarista, referindo-se a uma das Escolas que valorizou a Passarela : ‘...é um trabalho encantado. Traz história,cultura,valores e apreço . É um planeta de Luz.” E as Escolas de Samba, também prezam as letras da Músicas, reforçando valores sócio-políticos-culturais que a Passarela e o Povo devem cantar forte, cantar alto, que assim ‘ a Vida vai melhorar, a Vida vai melhorar.’
Retomando o que estava sendo dito, manteremo-nos calados? Privaremos os nossos Filhos, a jovem sociedade que aí está, do privilégio e mérito que tivemos? Aceitaremos isto de descabido que tem sido dito, que ‘Carnaval é coisa do passado?’
Não, heróis,ritos,mitos, heróis, História e Arte, tudo está contido nisto e morrer isto também é um crime. Não podemos calar a boca – contar e cantar bobagens – e cruzar os braços, seria cômodo e grave demais.Depreciativo e caro. Precisamos reerguer essa bandeira.
São quatro dias ímpares – quatro, mas ímpares. Faz parte do Passado, tem que estar Presente, como citado e vai enriquecer o Futuro ( ‘ ...que aqui passaram sambas imortais, que aqui sangraram pelos nossos pés, que aqui sangraram nossos ancestrais”- Vai Passar / Chico Buarque)
Faz parte da estima Social e Coletiva pela Poesia, pela Música, por uma história entoada que deve ser tocada País afora. Já que é bandeira, há que ser prezada com muito Orgulho ( Se a guerra for declarada, em pleno domingo de Carnaval, verás que um Filho não foge à Luta, Brasil recruta, o teu pessoal” – Rio 42º / Chico Buarque).

Maristela Dias da Cunha

* Por vezes me passa pela cabeça entregar os pontos, mas não vou. Quem sabe sugeriria que, nesta época do ano, se cantasse algo como ‘bota camisinha, bota meu amor...” Isto para mostrar que em nosso Carnaval. há décadas e décadas , expõe claramente – e numa linguagem lúdica – o que ocorre de grave e deve ser falado o ano inteiro. Temas voltados para o Cotidiano, o Social, a Saúde. Porisso, ‘ bota camisinha, bota meu amor ...’