VIVER

' Viver é muito perigoso...
Porque aprender a viver é que é o viver mesmo.
Travessia perigosa, mas é a da Vida.
Sertão que se alteia a abaixa. O mais difícil não é um ser bom e proceder honesto.

Dificultoso mesmo, é um saber definido o que quer e ter o poder de ir até o rabo da palavra. '
[ Guimarães Rosa ]

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quinta-feira, 3 de março de 2016

GRITO POR CARNAVAL

Sabemos que o Carnaval faz parte – uma parte boa – da nossa história, da história da nossa terra . Tem grande e rico significado para a Cultura brasileira.Isto é indiscutível.
Pertinente seria discutir se isso que vem ocorrendo de muitos anos para cá, pode ser chamado de Carnaval. Se alguém disser que é, eu digo: não é verdade.
Há muitos anos, o ginásio do Praia Clube – inúmeros uberlandenses são testemunhas – recebia pessoas, blocos que se fantasiavam de uma Alegria contagiante; dava para tocar com as mãos. O próprio ginásio, calado, aguardava os foliões que adentravam o clube. Eram Mágicos, Bailarinas, Palhaços – e nos rostos havia a magia, sim. As Bailarinas dançavam a Alegria, sim e os Palhaços vestiam no Corpo e na Alma a Fantasia, sim ( “ ...e um dia, afinal, tinham direito a uma alegria fugaz, uma ofegante epidemia, que se chamava Carnaval” – Vai Passar / Chico Buarque)
Já passou, tento me convencer – sem querer - de que já passou . Mas quem vivenciou esta época, é testemunha em carne viva ,da qualidade daquela festa, da quantidade daquela Vida. Com a Alegria estampada nos rostos, com confete e serpentina, os corpos dançavam as músicas apropriadas, naqueles quatro dias incansáveis – sem falar nas matinês- nas quais muitos de nós estávamos presentes, cantando e dançando a Vida, encantada que é ( é, sim).
Uma reportagem do Fantástico, há aproximadamente quatro meses, mostrou um grupo de trigêmeas brasileiras que estão brilhando na Europa, cantando as verdadeiras marchinhas de Carnaval. O mundo tem aplaudido e elas estão fazendo sucesso lá fora; contagiando com um ritmo que é só nosso e tentando, com o Coração, fazer com que os pés e os quadris dos Estrangeiros dancem com uma cadência que é só nossa.
Mudar o ritmo da história do Carnaval no Brasil, guardadas as devidas proporções, é alterar a nossa história cultural, alterar nossa bandeira. A Sociedade e as Instituições que lidam com a Música, deverão entender isto. Uma verdade, a esse respeito, já foi dita: “ A Música é como o Pão: elementar, santo e de todos” (Tristão da Cunha). E a história da Música, dos eventos regionais e nacionais, não pode ser negligenciada. História, inclusive musical, faz parte do passado ,está presente e sempre dará futuro.
Restou uma ‘globeleza’ que não ginga com a mesma cadência que talvez seja inimitável – Valéria Valenssa . E muito menos, quase nada, traz as cores trabalhadas no corpo, tendendo mais à erotização e não à Arte . O que deveria ser diferente, porque a Globo , naqueles poucos segundos valiosos, prefacia um trabalho valioso: os Desfiles das Escolas de Samba.
E as E-S-C-O-L-A-S são assim denominadas porque ensinam, através de um ritmo genuinamente brasileiro, temas que enfatizam o valor do nosso País e as riquezas nele contidas. Assistindo há pouco o desfile de uma das escolas paulistas, tenho que sublinhar o que foi dito pelo Comentarista, referindo-se a uma das Escolas que valorizou a Passarela : ‘...é um trabalho encantado. Traz história,cultura,valores e apreço . É um planeta de Luz.” E as Escolas de Samba, também prezam as letras da Músicas, reforçando valores sócio-políticos-culturais que a Passarela e o Povo devem cantar forte, cantar alto, que assim ‘ a Vida vai melhorar, a Vida vai melhorar.’
Retomando o que estava sendo dito, manteremo-nos calados? Privaremos os nossos Filhos, a jovem sociedade que aí está, do privilégio e mérito que tivemos? Aceitaremos isto de descabido que tem sido dito, que ‘Carnaval é coisa do passado?’
Não, heróis,ritos,mitos, heróis, História e Arte, tudo está contido nisto e morrer isto também é um crime. Não podemos calar a boca – contar e cantar bobagens – e cruzar os braços, seria cômodo e grave demais.Depreciativo e caro. Precisamos reerguer essa bandeira.
São quatro dias ímpares – quatro, mas ímpares. Faz parte do Passado, tem que estar Presente, como citado e vai enriquecer o Futuro ( ‘ ...que aqui passaram sambas imortais, que aqui sangraram pelos nossos pés, que aqui sangraram nossos ancestrais”- Vai Passar / Chico Buarque)
Faz parte da estima Social e Coletiva pela Poesia, pela Música, por uma história entoada que deve ser tocada País afora. Já que é bandeira, há que ser prezada com muito Orgulho ( Se a guerra for declarada, em pleno domingo de Carnaval, verás que um Filho não foge à Luta, Brasil recruta, o teu pessoal” – Rio 42º / Chico Buarque).

Maristela Dias da Cunha

* Por vezes me passa pela cabeça entregar os pontos, mas não vou. Quem sabe sugeriria que, nesta época do ano, se cantasse algo como ‘bota camisinha, bota meu amor...” Isto para mostrar que em nosso Carnaval. há décadas e décadas , expõe claramente – e numa linguagem lúdica – o que ocorre de grave e deve ser falado o ano inteiro. Temas voltados para o Cotidiano, o Social, a Saúde. Porisso, ‘ bota camisinha, bota meu amor ...’

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