VIVER

' Viver é muito perigoso...
Porque aprender a viver é que é o viver mesmo.
Travessia perigosa, mas é a da Vida.
Sertão que se alteia a abaixa. O mais difícil não é um ser bom e proceder honesto.

Dificultoso mesmo, é um saber definido o que quer e ter o poder de ir até o rabo da palavra. '
[ Guimarães Rosa ]

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quinta-feira, 4 de novembro de 2010

DANCEI

Amo dançar - sempre gostei. Embora tenha tido que deixar a dança clássica, o movimento nos mais diversos ritmos , permaneceu latente dentro de mim .
Disse Nietzsche : ‘ Eu acredito num Deus que saiba dançar ‘. Concordo, absolutamente . A consonância do corpo junto ao movimento, traz confissão e oração juntas : em quaisquer época/sociedade, na coreografia tem encanto,encontro e prece . Tem benção, sem dúvida. Deus é manifesto, ali.
A Cultura, sociedade e valores – renúncia e denúncia - mostram-se verdadeiramente, num grito corporal cadenciado e legítimo. É o cotidiano gestualmente exposto, no devido compasso.
E os corpos nos quais o Afeto reside, nos quais a convivência afetiva tem carteira assinada ? Nestes sim, a Dança manifesta-se, contando da relação nua, da sua linguagem e interação. Nas relações onde a Dança reside, os corpos endossam a parceria e conivência, segredos . O movimento é a certidão do Afeto.
Tem uma grande verdade que sublinha : ‘ A Dança é a expressão perpendicular de um desejo horizontal ‘ [ George Bernard Shaw]. É, com certeza. Dançar – em se tratando de parceiros afetivos – é fazer amor publicamente, cadenciado ao ritmo de um desejo freado, que transita livremente , com o amparo da música, sem pudor algum .
Afrodisíaco e excitante é o ritmo que os corpos encontram, do roçar dos rostos à linguagem dos passos que se fundem precisos .Misturam-se, con- fundindo-se . E sem lógica nenhuma [ a lógica nada tem a ver com isto, felizmente ! ] gozam. Entender isto encanta e motiva.
Eu tenho um parceiro de dança que me contém . A linguagem ritmada de seus movimentos , criativos, naturais e principalmente, singulares, me encanta. É muito comum hoje ,percebermos dançarinos que priorizam a atenção e os olhares ; o cunho egoico , a necessidade de serem admirados fica evidente – dançam para a plateia e não para si . Meu parceiro, não .
Já nos conhecemos há algum tempo, desde aulas de dança ,a festas e bailes , tem muito tempo de ritmo e tem o ritmo do Tempo nesta história entoada. E sempre o admirei : entrego-me aos seus passos, buscando cadenciar o movimento com a paixão que tenho pela Dança – e obviamente pela Música que a avaliza . E desta entrega redunda uma sensação de leveza e Luz, onde a Razão não cabe e sai de cena, deixando que a Emoção endosse o passo.
Eu gosto da sensação de crédito de momentos como este. São raros os momentos hoje em dia – e principalmente ,hoje em noite ! – onde temos por perto, corpo a corpo, a Confiança. Sei que mudei absolutamente de assunto, mas alguém de Nós sabe onde é que anda este sentimento tão preciso , em toda e quaisquer Relação ? Daí a eu aproveitar, sorver e lambuzar-me de momentos como este. Uso e com todo o Respeito [ palavra inerente a Confiança] ,abuso. Delicio-me .
Felizmente, percebo que ali, outras pessoas também o fazem: entregam-se ao prazer da Dança, explorando, aproveitando a riqueza inerente a momentos como este. Difundem-se no palco, sós a dois (!).
Contagiam-se de uma Alegria calada , perene e certa de si . Certa de que a Felicidade não necessariamente esteja por perto, contudo, lateja no peito uma sensação de Paz , de Crença – interligadas, sempre estão, estas duas - na certeza de que, na Vida a gente não pode e não deve ter vergonha de ser feliz. Em alto e bom tom , em passo e compasso , assino embaixo .