VIVER

' Viver é muito perigoso...
Porque aprender a viver é que é o viver mesmo.
Travessia perigosa, mas é a da Vida.
Sertão que se alteia a abaixa. O mais difícil não é um ser bom e proceder honesto.

Dificultoso mesmo, é um saber definido o que quer e ter o poder de ir até o rabo da palavra. '
[ Guimarães Rosa ]

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quinta-feira, 4 de novembro de 2010

DANCEI

Amo dançar - sempre gostei. Embora tenha tido que deixar a dança clássica, o movimento nos mais diversos ritmos , permaneceu latente dentro de mim .
Disse Nietzsche : ‘ Eu acredito num Deus que saiba dançar ‘. Concordo, absolutamente . A consonância do corpo junto ao movimento, traz confissão e oração juntas : em quaisquer época/sociedade, na coreografia tem encanto,encontro e prece . Tem benção, sem dúvida. Deus é manifesto, ali.
A Cultura, sociedade e valores – renúncia e denúncia - mostram-se verdadeiramente, num grito corporal cadenciado e legítimo. É o cotidiano gestualmente exposto, no devido compasso.
E os corpos nos quais o Afeto reside, nos quais a convivência afetiva tem carteira assinada ? Nestes sim, a Dança manifesta-se, contando da relação nua, da sua linguagem e interação. Nas relações onde a Dança reside, os corpos endossam a parceria e conivência, segredos . O movimento é a certidão do Afeto.
Tem uma grande verdade que sublinha : ‘ A Dança é a expressão perpendicular de um desejo horizontal ‘ [ George Bernard Shaw]. É, com certeza. Dançar – em se tratando de parceiros afetivos – é fazer amor publicamente, cadenciado ao ritmo de um desejo freado, que transita livremente , com o amparo da música, sem pudor algum .
Afrodisíaco e excitante é o ritmo que os corpos encontram, do roçar dos rostos à linguagem dos passos que se fundem precisos .Misturam-se, con- fundindo-se . E sem lógica nenhuma [ a lógica nada tem a ver com isto, felizmente ! ] gozam. Entender isto encanta e motiva.
Eu tenho um parceiro de dança que me contém . A linguagem ritmada de seus movimentos , criativos, naturais e principalmente, singulares, me encanta. É muito comum hoje ,percebermos dançarinos que priorizam a atenção e os olhares ; o cunho egoico , a necessidade de serem admirados fica evidente – dançam para a plateia e não para si . Meu parceiro, não .
Já nos conhecemos há algum tempo, desde aulas de dança ,a festas e bailes , tem muito tempo de ritmo e tem o ritmo do Tempo nesta história entoada. E sempre o admirei : entrego-me aos seus passos, buscando cadenciar o movimento com a paixão que tenho pela Dança – e obviamente pela Música que a avaliza . E desta entrega redunda uma sensação de leveza e Luz, onde a Razão não cabe e sai de cena, deixando que a Emoção endosse o passo.
Eu gosto da sensação de crédito de momentos como este. São raros os momentos hoje em dia – e principalmente ,hoje em noite ! – onde temos por perto, corpo a corpo, a Confiança. Sei que mudei absolutamente de assunto, mas alguém de Nós sabe onde é que anda este sentimento tão preciso , em toda e quaisquer Relação ? Daí a eu aproveitar, sorver e lambuzar-me de momentos como este. Uso e com todo o Respeito [ palavra inerente a Confiança] ,abuso. Delicio-me .
Felizmente, percebo que ali, outras pessoas também o fazem: entregam-se ao prazer da Dança, explorando, aproveitando a riqueza inerente a momentos como este. Difundem-se no palco, sós a dois (!).
Contagiam-se de uma Alegria calada , perene e certa de si . Certa de que a Felicidade não necessariamente esteja por perto, contudo, lateja no peito uma sensação de Paz , de Crença – interligadas, sempre estão, estas duas - na certeza de que, na Vida a gente não pode e não deve ter vergonha de ser feliz. Em alto e bom tom , em passo e compasso , assino embaixo .

domingo, 19 de setembro de 2010

PRESSÁGIO

O sentimento adonou-se de mim e com tato , pude apalpar-te: existes.[( " Já falei tantas vezes, do verde dos teus olhos. todos os sentimentos me tocam a Alma, alegria ou tristeza... )
Cheio de Esperança fica o Afeto, porquanto caminhamos e encorajados optamos por permitir ao Coração que sinta, muito; que sinta, mesmo.[ Houve um tempo em que ficou o Afeto cheio de mágoa, dado ao sentir, por vezes, causar ferida.]Te encontrei. Porisso, nada me impediu de, ao te pressentir, permitir que o sentimento doce me adentrasse o peito. (...mas agora é o balanço e essa dança nos toma, esse som nos abraça, meu amor- Você tem a Mim...)
' Existirmos, a que será que se destina ?' Caetano teve a ousadia de questionar.Parei de perguntar à volta disto e optei faz tempo, por ter a audácia de Existir como começo e meio, desinteressada no fim . Existir hoje, agora, então . Crer.
Pressentindo a acreditando, não se quer fincar a bandeira, menos ainda demarcar território junto ao Outro . Ao contrário , por se ter ciência de que Propriedade limita, vestimo-nos - e ao Outro - de Liberdade .( O teu corpo moreno, vai abrindo caminhos, acelera meu peito e nem acredito no sonho que vejo. E segui dançando e tudo rodando: parece que o mundo foi feito pra Nós...)
Ultrapassa o saudável e chega a ser irônica, a audácia da consciência de Nós mesmos, que presumimos nos conhecermos. Sermos Nossos, conduzirmo-nos .Tarefa primeira da Auto- Estima, é termos certeza de que existe sempre algo de inédito, desconhecido. Porisso, misterioso , enquanto não descoberto. ( me abraça e me aperta, me prende em tuas pernas, me prende, me força, me roda , me encanta, me enfeita num beijo.)
Surpreendi-me , com o que senti ao te encontrar e disse: hora destas eu broto, hora destas eu vingo .Eu , peito seco, terra árida e de repente! senti-me fértil, úmida . Pronta. Capaz.( E é pura beleza essa música - sente!- e parece que a gente se enrola, corrente e tão de repente, Você tem a Mim .") A Festa - Maria Rita ]
Aquele ABRAÇO.
Maristela

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

TOCOU FUNDO

Eu recebi de um amigo recente, um dvd cujo título já me chamou a atenção : ‘ Viola Urbana ‘. Assim que entrei em casa fui ouvir. Porisso mesmo, o título: porque tocou fundo.
Foi um show em Belo Horizonte, no grande Teatro Palácio da Artes, com diversos e surpreendentes – pra nós, daqui, infelizmente - intérpretes que se ancoraram numa viola caipira-cidadã , como foi citado . Realmente, um trabalho encantador, entoando a verdadeira música sertaneja . Cantam e tocam com a voz e a alma; show que não tem preço.
Pode-se perceber , o quanto o sertanejo está ligado ao Coletivo , sob diversos prismas .Foi nítido que a platéia sentiu , durante toda a apresentação, a Parceria/Interação/Admiração e Respeito , que existe entre eles muito fortemente ali, também ali. Aliás, isto ficou bem firmado , quando no final, todos os intérpretes ( estou tentando substituir esta palavra simplesmente por ‘ cantores’ e não estou conseguindo - daí a estar sendo repetitiva ) entoaram ‘ O Menino da Porteira ‘ ( Tedy Vieira / Luizinho); isto porque esta música, traz em melodia o significado de ‘ Amizade ‘ /Fraternidade . Como faço questão de lembrar, é a história ( é do tempo que ' estória' se escrevia assim...) de um menino que sempre corria pra abrir a porteira; e sempre pedia ao boiadeiro passava que tocasse o berrante. Porisso ,quando certa vez ele encontrou a porteira fechada,surpreendeu-se . E então, soube pela mãe ,que o filho tinha sido morto por um boi . Numa atitude de desalento e inconformismo – mesmo que a boiada estourasse – ficou definido : o berrante, ali , ele não tocaria mais . Amizade e carinho, misturados à poeira e melodia.
A mesma Amizade que o Palácio das Artes juntou no grande teatro, naquela noite. E João Araújo confessou-se, na interpretação da música ‘Menino da Cidade’ . Importante : a letra não se refere a Menino de Rua - que embora não seja o sinônimo , vive presente . Esta , expõe um Menino da Cidade que tem fome do campo, sendo sempre amparado pelo conforto da viola. [“Saudade do que não vivi ... todo menino da cidade, do mato não sabe o que diz ... “].
Ao receber Chico Lobo , João Araújo cita que foi esse amigo quem definiu ‘ o que, exatamente ’ seria a ideia comentada, quanto falou com ele acerca do que pretendia com o trabalho : Chico frisou que teriam que ser reunidos muitos violeiros. E assim foi feito, com a ressalva significativa de que os participantes do espetáculo, mostraram mais um diferencial ; cada um deles interpretou sua música com uma peculiaridade que vai da voz à riqueza com a qual acolhem a viola,extasiando a plateia . [ “ Meu coração sabe sentí, cheiro de roça pelo ar, café que cabô de saí... Terra molhada vai chovê, estrume a terra vai parí ... ] . A esta estrofe ressaltarei , tentando sublinhar a metáfora : a Planta surge realmente da fecundação , na terra molhada ; a terra, úmida , é o ventre da Natureza . É a benção para a Vida , que ali transcorre, seguindo seu curso em silêncio e harmonia .
En – cantaram , certamente. ‘ A Música é como o Pão : elementar, santo e de todos ‘, bem disse Tristão da Cunha . Em resposta , por gratidão à voz e ao instrumento – e também,à letra , a Música acolhe e conforta . Aborda temas/ sentimentos , questiona, discute, debate, revela . Desta forma, só resta dizer que a Música avaliza os conceitos/valores que são imprescindíveis para a qualidade da Vida.
E o sentimento com o qual o público , coletivamente , entoa as letras, também é por demais valioso. Existem entrega e consentimento , afinados . Naquele momento é um elo entre o Cantor ( consegui!) e a Plateia
- como se fosse um se pacto entoado; e depois o aplauso, consonante e mútuo.
São muitos os momentos que também junto ao aplauso ,a lágrima rola no rosto : é a emoção daquele não cabe no olhar e escorre pela face . É a mesma lágrima de um sentimento de dor , entretanto, não fere e principalmente, não se contém e entrega-se ao que ouve . É uma dor que recompensa o valioso sentimento de entrega. [ “ Quando eu tocá meu violão e as água dos oi caí, não ligue, não é nada , não . Saudade do que nem vivi ... ]
Com certeza, não difere da minha, a opinião de muitos que tiveram o privilégio de estar ali dentro . Nas feições estava claro o sentimento de conivência, de parceria. Eu creio que é esse o significado de uma palavra curta e intensa, que toca a gente quando ouvimos a um 'Hino'.Muitas da músicas interpretadas , foram cantadas como tal - algo que exalta e toca fundo. Tem-se literalmente orgulho da terra, quando se escuta. E foram muitos os hinos sertanejos e orgulhosamente nacionais.
Porisso, naquela noite, esta palavra que muitos significados tem, ainda que calada,certamente adormeceu no coração de muita gente.[ " E eu na rede da varanda,meio sonha,meio acorda , sem pressa de dormí ( Menino da Cidade - Viola Urbana /Letra : João Araújo.)]


terça-feira, 1 de junho de 2010

A RIACHUELO E O COMÉRCIO DO CONCEITO

Acerca de alguns meses, vi na Riachuelo - a segunda maior empresa do segmento de Moda, no Brasil - estas camisetas . E dirigi-me ao departamento , citei minha crítica . Isto em razão , do lay-out ser absurdamente estúpido . A depreciação da Figura Feminina ,a Virilidade e o sugestionamento à Bebida : “Álcool ? Tô fora! Saí pra comprar.”
A questão não está focada no destrato à Figura Feminina. Não . Refiro-me ao tema Sexualidade em linguagem ultrajante ; desrespeitando os Conceitos,o Cliente/Mercado e à própria Riachuelo . Infelizmente, o Cliente / Família e Sociedade , são induzidos a se vestirem disto , vestindo lá fora tal ideia.
Há anos atrás, a loja lidava com um segmento de nível sócio-econômico diferente do que hoje conquistou . Contudo, persiste uma característica comum : ali -ainda! - circula a Família . Isto agrega lucro para a empresa e Valor para o Cliente. Possibilita-se a relação interativa da Célula-Família, via escolha das
peças. Sugerindo,permutando ideias.Con-vivendo. Todo segmento há que ser respeitado pelo Comércio,que deverá estar preocupado com a Indução de Conceitos prejudiciais. Ocorre (a)normalmente , em mensagens sub-liminares e nocivas . Se bem -se mal – que, nessas, nada é ‘sugerido’ , tudo está claramente exposto no peito.
Por isso, qual não foi minha surpresa quando, nesta semana , ao passar pelo departamento, lá estavam aquelas e a nova coleção – que conseguiu piorar . Expondo mensagens que para serem ruins, têm que melhorar muito; são péssimas. Vi então, que a questão não era o Carnaval daquela época : a Riachuelo está [des]preocupada em ter ali, diversas linguagens , sem avaliá-las devidamente. Quer mostrar que atende aos mais diversos perfis e o que está buscando, é retorno econômico a qualquer preço: mesmo baixando o custo de Conceitos preciosos .
Durante dois dias, passei algum tempo lá dentro, observando os perfis dos Clientes que aproximavam-se . E a todos abordei, perguntando – lhes suas opiniões acerca das camisetas. Sublinho que foi uma experiência empírica, singular; não foi pesquisa , dada a falta de planejamento, abordagem , entre outras n variáveis. E as respostas ,foram basicamente as mesmas : os Clientes discordaram daquilo, ali na Riachuelo . São elementos a mais que contaminam em linguagem negativa – muito abaixo de zero – Conceitos valiosos . Finge-se que está lidando com linguagem lúdica . Vendendo irreverência, na mesma linguagem do Jovem, limpando (?) a barra .E nisto, definitivamente,a Riachuelo sujou. Sujou .

                                                                                                                    Maristela Dias da Cunha

* Não duvido que depois desta divulgação, as peças serão mais procuradas por um Cliente-Jovem, que não sabe que é lindo,não se auto-estima .Vem se agredindo , anda se desrespeitando e gritando para consigo mesmo – um grito que nem ele ouve. E quanto a isto ,eu sinto muito.



** As camisetas saíram das lojas Riachuelo em menos de 30 dias ,depois que o texto foi enviado à Matriz.

sábado, 29 de maio de 2010

FEIRA DA GENTE

Algo que sempre me trouxe satisfação, por incrível que possa parecer, é ir à Feira. Em todas as cidades em que vivi ,aquele espaço sempre chamou-me a atenção.E fico a observar o comportamento e a interação entre os Feirantes ; esta se estende além do Comercial e alcança o Social , de forma extremamente interativa e sadia.
Logo ao amanhecer, quando os Feirantes estão montando cada um o seu espaço, para expor e vender o seu produto, a Relação entre eles é muito interessante. Percebe-se a Parceria , a Cooperação; a naturalidade com a qual conversam entre si e trocam idéias, assim como se auxiliam: um suprindo a necessidade do Outro.Cooperando, mesmo. Isto porque sabem que dali a pouco, os Clientes chegarão e deverão ser bem recebidos.
Pois bem. Começa então a Interação Comercial, a razão pela qual a Feira existe, ou seja, a Venda dos produtos. Já aqui, a relação entre os Feirantes, muda em Forma e Conteúdo. Clara, firme e inclusive de forma ousada, usam de seus recursos/ estratégia para atrair os Clientes normalmente, às Clientes, pois o perfil do cliente – alvo, ali, é a Mulher, a dona-DA-casa. Mais interessante ainda é observar que elogios diretos, pessoais são feitos cita-se discretamente uma característica daquela que passa ; ou uma discreta atitude sedutora ( “ Jiló verde da cor dos meus olhos “] . Faz-se diretamente a Propaganda , buscando chamar a atenção quanto à qualidade dos Produtos ( “ Cebola extra anti-lágrimas “ ) bem como Promoções criativas, ludicamente ludibriadoras ( “ A cada dez reais você ganha um ‘OI’ de graça. Cada feirante recorre às Estratégias que pode, para atrair mais os Clientes ao seu espaço.[ À parte, caro Leitor. Desde o início do texto estou relutando em usar a expressão ‘ o Feirante, com a barraca armada’, Você sabe a razão. Determinadas expressões , metáforas, ganharam espaço definitivo, calando/restringindo para sempre o significado que a palavra ( ou expressão) tem. Incrível, isto.]
E tal relação de Competitividade acirrada se mantém, durante todo o tempo; bem como ao final da manhã, quando está se encerrando o horário , para findar a manhã –comercial, dá-se início às ‘liquidações’ dos produtos, as ofertas. Principalmente aqui, compete-se de forma acirrada, cada um gritando a sua Proposta, buscando ganhar do Concorrente.E é espantoso e surpreendente, como isto ocorre às claras, de forma árdua e paradoxalmente, ética. ( “ Aqui você paga tudo mais barato e pode levar tudo, ate eu “)
Finaliza-se, então, o evento e é hora de serem desarmadas as barracas e partir-se para o outro dia. Igualmente aqui, pode-se comprovar a Participação, Cooperação e Solidariedade. Os Feirantes interagem, brincam , divertem-se . Críticas e comentários, referentes ao time de futebol, ao governo e alguma assunto que tenha tomado corpo naquela semana, nos jornais e assim, na Vida. E finalmente, parte-se daquele lugar para o próximo , onde começará tudo outra vez.
Creio que deveríamos tomar aquele espaço como exemplo, trazêlo para nosso cotidiano, comercial e pessoal. Penso que em toda e quaisquer relações ,mas, principalmente aquelas que envolvem Lucro, deveriam – melhor ainda, deveriam – ser tratadas de forma limpa. Não deveríamos fazer de nosso trabalho, esconderijos, com código e estratégias sigilosas.
Na Vida , afetiva,social e profissionalmente , se as Relações fossem assim ,claras, teriam, certamente, maior chance de Êxito; seria mais fácil de se lidar com o Conflito (se ou quando estes existirem). Isto porque poderíamos ter certeza que nosso Sucesso é desejado (!) pelo Outro, bem como a recíproca é verdadeira: desejamos(!) o mesmo para Ele.
E agindo desta forma, Todos sairíamos ganhando, na feira desta grande avenida – a Feira da Vida.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

O CUMPRIMENTO DO CUMPRIMENTO

À pequena Laura , pelo sabor da afeição. E para Téo, pelo testemunho , meu abraço .


Tem certas coisas que eu fico pensando, voltando-me um pouco pra trás em minha estrada – hoje acho que fica melhor eu citar ‘Pista’ ; é , isto mesmo – na pista da minha Vida . Eu, como todos, tenho muita história pra contar. Afinal, sou de um tempo da história sem 'h'.
Lembro-me bem de que eu assistia os Jetsons , um curioso e rico seriado, criado por cartunistas estadunidenses, num grande estúdio – o Hanna Barbera . Este foi, a posteri adquirido pela Warner Bros. Animations e transformado no hoje mundialmente conhecido, Cartoon Network Studios . Lá de dentro, vieram personagens que marcaram a Infância da minha geração . Sem dúvida.
Tom e Jerry, A Pantera Cor-de-Rosa , Scooby – Doo, os Flinstones . Em segredo, aquele Segredo que só conto pra Você, aqui , preciso confessar: eu sou do Tempo da TV em Preto-e – Branco . Você faz ideia do que é isto ? É, não : foi . Foi assim e eu gosto que tenha sido. Eu vivenciei sabores,cores e valores diferentes ; talvez não tão coloridos, mas de temática de cor mais definida.
A minha geração, foi ( vai, ainda está indo, certamente) do Trem-de-Ferro ao Jato e Air Bus; eu quase vi de perto a caneta - tinteiro e agora os notebooks agilizam a Vida , deleta o Passado .
Lembro-me que, sentada no chão, olhando encantada o toca-discos , eu tentava investigar como dali saía a Voz ; e me dedicava a pensar, desvendar, descobrir o segredo [ se bem que não acredito que a Infância goste de fazer com que a Criança pense ( faça de conta que não é uma Psicóloga que te confessa isto, ok? ) ; pra mim, a Infância quer que ali seja a época do Sentimento, apaixonado e mágico . ]
Em outro texto, procurarei tocar mais fundo neste assunto . É uma confissão mais densa , intensa mesmo e se continuasse aqui ,eu distorceria ainda mais o tema .
Neste Tempo ao qual me refiro, lembro- me também que eu queria crescer depressa . Isto era algo muito importante pra mim . Haviam , naquela época, situações que eu muito admirava , queria participar e não podia.
Uma delas, era o Cumprimento. Eu prestava bem a atenção , quando saíamos à rua e as pessoas se olhavam bem, ao passarem Umas pelas Outras . E sempre, sempre havia o ‘ Bom-dia ’, ‘ Boa- tarde’ ou ‘ Boa-noite ‘ com uma única ressalva, que muito me contrariava: nunca era entre ou para as Crianças. Era somente entre os Adultos.
Assim, uma das metas que eu tinha para o Durante , é que cumprimentaria a todos e seria – era esta a minha ideia – também cumprimentada . ( A Infância era o Antes, a Vida Adulta o Durante e a Maturidade , o Depois ; eu pensava que seria assim. Nada saiu como eu pensava . Hoje pressinto mais que minha Infância foi Quanto, meu hoje é Momento e a Maturidade ,o Então . [ Lembrei-me aqui de Pablo Picasso: ‘ Leva-se muito tempo para ser Jovem ‘ . Grande e desconhecida Verdade .]
Contudo, é século XXI .O Tempo - ou Nós, por causa dele - mudamos a Linguagem das Relações e a gente anda alheio . Estamos mesmo socialmente alienados, embora não pareça . O Sentimento - exemplificando, o Cumprimento - não tem mais nenhum sentido. A vida requer pressa, agilidade, velocidade.
Pois bem , tolerante Leitor. Esta frustração causa-me muito desconforto. Por isto , já há alguns meses, Eu conversei Comigo e decidi tomar tenência - esta palavra também, é coisa do passado .
E a partir disto , nas caminhadas e corridas, em todos os momentos que estou pelas ruas, passei a olhar as pessoas nos olhos e cumprimentá-las. Por falar nisto, acho que deveria ser multado, quem corre com walkman ( e em cada cinco jovens, cinco o fazem ). Correr assim, é correr com o Eu, com o Singular. Principalmente a estes, eu cumprimento , mesmo .
E isto tem sido uma compensadora surpresa – um , mais um laboratório meu, acerca das Relações/Sociedade. As reações são diferentes e inéditas – também para Quem recebe o Cumprimento .
Algumas Pessoas recebem-no socialmente, digamos assim; respondem numa entonação de voz que não demonstra Satisfação por ter recebido e devolvem-no. Sim, é esta a sensação: devolvem-no . Não o receberam , menos ainda , ouviram-no . Simplesmente escutaram. ( Há uma grande diferença entre ‘ Escutar’ e ‘Ouvir’, bem como em ‘Olhar’ e ‘ Ver’ . E infelizmente, na grande maioria das relações hoje, unicamente se olha e se escuta. )
Outros recebem o Cumprimento e sorriem gratuita , sinceramente, reiterando-o , Não é comum, mas já aconteceu mais de uma vez, da Pessoa a quem cumprimentei sorrir e complementar: ‘ –Bom dia pra você também.” Falando em surpresa, já me ocorreu, certa feita ( esta expressão é dos tempos do assunto tratado... ) de uma senhora, tendo quase que se assustado , responder-me:
‘ Obrigada!!! ‘ . É, ela respondeu como se eu tivesse feito a ela uma gentileza. Pode ?
Tem também aqueles extremamente mal –humorados, que ao meu
‘ Bom-dia’ faltam responder-me : ‘ – Você tem certeza? ‘ . E por aí, vai .
Aconteceu, há pouco tempo, algo que acrescentou à minha experimentação . Viajei para um lugar distante , onde eu digo que não é Brasil. Quando comento isto, lá, sinto que ofendo um pouco - os Gaúchos . Contudo, quando me explico, eles não têm como se sentirem magoados comigo: é que as Relações ali, Afetivas/ Sociais e até mesmo Econômicas, diferem da Vida aqui pra cima . Demora-se a conquistar o Outro , mas a Interação é buscada.E depois que conquista-se, tem-se um Amigo .
E justamente lá, onde matei muito a Saudade de alguns anos, propus a uma grande amiga – a pequena Laura – que déssemos seguimento ao que eu tinha iniciado aqui .
Então, em nossa atividade, nos propusemos a cumprimentar as Pessoas e observar, para depois concluirmos aquilo que eu havia dado início aqui . Demos seguimento à experiência . E sublinhou-se o que eu já havia pressuposto : lá, as relações sociais hoje, têm mais Crédito ; as pessoas estão mais abertas e dispostas ao Encontro , ainda que Social . Às Relações de Parceria.
É isto. E a Você, que me deu o prazer de ser lida até aqui, eu faço uma sugestão. Ao sair , Amanhã, quando tiver um tempinho, experimente este exercício. Estou certa de que se surpreenderá .
Surgirão atitudes que farão com que Você se sinta um pouco constrangido, outras que te trarão uma Alegria incontida, um Sentimento e tanto ( sim, porque isto não se explica; só se Sente e ponto) . E ao final disto tudo, pinta no peito, sem a Vergonha , sem preceito , uma mistura de muita coisa boa . Interação . Princípio . Solidariedade. Respeito.Valor . Cidadania .
E se Você leu até aqui, o que escrevi, interessou-se, quis saber , pense no que te propus : abra porta, segure o Tempo , ponha a Vida em Dia .

domingo, 14 de fevereiro de 2010

É CARNAVAL, MAS NÃO É FANTASIA

Segue aqui uma daquela situações que a gente não pode deixar passar em branco . Um, porque é sério mesmo e dois, porquê não é momento de eu jaborniar-me . É Carnaval ,o carnaval de hoje, mas é carnaval . É coisa séria – embora leve – e que traz algo de muito bom à Cabeça e ao Coração , o que tenho pra contar .
Hoje pela manhã, passei por uma construção; e lá vi algo que tenho que confessar pra Você, como sempre. Isto porquê o que vi, firmou em mim algo que já é Óbvio, mas que quando tocamos, literalmente, dá forma.
Eu corro por lugares diferentes, sempre. Assim , sinto-me melhor, fujo do Cotidiano,com o qual eu não sei lidar de forma alguma . E hoje, rua afora, passei por um local que chamou minha atenção – e o principal : embora pareça , a ideia, na verdade, não é esta. Não é alertar a quem passa é bem diferente disto: é gritar para dentro de Si .
É uma construção pequena, residencial . E ali, junto à madeira, às telhas, ao Braço que mistura areia e água, num cuidadoso exercício – há que se medir , para ser colocada na betoneira – preparando a massa que vestirá pra sempre as paredes, enfim ali algo de bem mais que concreto e principalmente: contraditório .
Tinha ali quietinha, obediente e sedutora ( tudo no seu devido lugar, digamos assim) uma Manequim enfeitada para o Carnaval . É isso mesmo, pode acreditar.
Na hora em que vi, imediatamente pensei: é uma reforma da casa, mas os moradores estão aí, tentando conciliar tudo isto com o seu dia-a-dia , agüentando a bagunça, pensando no Depois. Certamente a proprietária é uma costureira, tem uma confecção e esta é uma manequim que ela tem, para experimentar/ expor as peças que produz. E agora estão fazendo uma limpeza, qualquer coisa assim , tirando a poeira que isto aqui deve causar ; enfim, busquei mil motivos para justificar aquela peça , naquele lugar , antônima, descabida, destoante – todas as cores que tem ali concordam com o o neutro, o pálido, cores caladas. [ No meu parênteses que Você já conhece, tenho que citar . Creio que copiei aqui uma frase que sempre vejo, pixada num muro , noutro lugar onde corro : ‘ Todas as cores concordam no escuro’( infelizmente, não tem o nome do autor ).Bonita a frase, concorda ? Fincou em mim e justo agora, creio que cabe aqui.)]
Voltando , a Manequim é o contrário: é a mais colorida Verdade . Ela era assim, meio Colombina, meio Bailarina, na testa o enfeite sabe aquele, do Can- Can, das Dançarinas, sabe ? Caso não se lembre, de coração, eu sinto muito. Era aquele mesmo – só que ali ,com uma única pluma . Desfiada, muito usada, desgastada. Única, mas Pluma .
Entendi o que eles queriam dizer: ‘ – Também pra Nós , é Carnaval ‘ . Eu senti, na atitude , tanta ousadia , senti petulândia , uma doce arrogância, cheiro de persistência. Alegre irreverência . E isto é contraditório, porque no fundo, no fundo, a Irreverência quase sempre é cínica, quer desagradar, quase sempre, agredir . Guarde segredo, Caro Leitor: ela é sempre Amarga .
Mas voltando, ali estava a Manequim , que na verdade é uma Bandeira. É a Ousadia, o grito alto, demarcando Território, espaço, direito . Vida, à revelia . Concorde , eu sei o que digo : eu vi a Alegria.
Sabe, eu tinha citado lá em cima que tudo isto firmou algo pra Mim – e sei que Você, principalmente, meu doce Leitor, me avalizará: somos, Somos , sim , o suficiente – ou melhor, Somos o bastante pra virar o vento, se quisermos, dar uma guinada, fazermos nosso caminho. Fazermos festa, dentro e fora de Nós, ainda que calados, seguindo o nosso rumo , ainda que do nosso jeito, com o parco recurso – ainda que com a pá nas mãos, o carnê no bolso , sem muita Certeza . Quase que sem Garantia .
Sentir a Felicidade é um Princípio, V-i-v-e-r é um Direito . É a verdadeira certidão do nascimento e de termos consciência de algo que é sagrado: é o Livre-Arbítrio .

Maristela Dias da Cunha





# Eu não quis estragar meu texto, sabe, Caro Leitor , mas no exato momento em que passei por eles e não disseram nada, não mexeram comigo e eu logo pensei: ‘ –Será que engordei?!? Nada disto, Querido Leitor : Eles mexeram muito, tocaram fundo , como só Eu sei .

A MODA SAIU DE SI

A meu modo de ver - e investiguei, inúmeras pessoas concordam comigo - a Moda -a Criação - saiu de si e está meio em surto. A criação que envolve e atinge a moda musical, estética . O Estilismo, é um exemplo . O Estilista é um Artista. E assim, sente o cheiro social do que está acontecendo e , a partir daí, Cria . Os Conceitos, Valores, estão rasgados. Desfiados. Encardidos também, estão encardidos , pra não falar que estão sujos .
Fico olhando, magoada o que está acontecendo agora, cultural e poeticamente, na vida dos jovens. E me pergunto: por que o nosso privilégio?
Lembro-me de um tempo em que no nosso Praia haviam muitas lanchas lindas ancoradas na Eclusa, e a moçada subia o rio esquiando e muito, muito se divertiam, de forma inteiramente sadia.
O Carnaval , quatro noites – e duas matinês - onde corríamos atrás da Alegria, em blocos que contagiavam a Fantasia. Letras de músicas e ritmos próprios , bandas que se prendiam à característica daqueles quatro dias que faziam parte realmente do Carnaval. Coisa do Brasil. O ginásio do clube continua lá, hoje modernizado ; contudo , sei que também guarda em si , embora calado, a ‘
a saudade das noites onde a serpentina, o confete e o ritmo levavam os corpos a saírem – de forma saudável – de Si. Quem vivenciou tem saudade. Arde, mas é uma boa lembrança.
No Fantástico, foi apresentada uma reportagem significativa, de um grupo musical – trigêmeas brasileiras, jovens – que está fazendo sucesso na Europa. Cantam marchinhas de Carnaval e farão sucesso, de fora do país para depois, dentro dele.
Retomando, as Moças ( sei lá porquê, foram privilegiadas, e só começavam a se envolver sexualmente, quando o sentimento existia de verdade -existia tesão também entre os braços, no coração ) usavam um vestidinho chamado "micro-saia", que se eu te contar o tamanho, você não acredita! Ousadia, aceito que fosse, mas imoralidade não. A Moral está além do comprimento das roupas, senão ela sobe e desce de um dia para o outro e não é o caso. Moral é um bem que depois de adquirido, não se perde. Cabe falar também que a sociedade Masculina, diferia em forma e conteúdo, de hoje.
Um sucesso foram as Gincanas, organizadas e muito legais, com os carros de cada equipe igualmente pintados. Estas tinham objetivos para serem cumpridos, de cunho cultural, social, lúdico, sadio. Uma Juventude que em muito existiu, com mais qualidade da vida e eram lindos .
Das "soirées", no Uberlândia Clube, nem te conto. A cada vez que a gente olhava Um para o Outro, era uma taquicardia deliciosa; se tiradas para dançar, então era um prêmio, e as conseqüências dali adviriam. Uma Amizade - digo que a Amizade é o Amor assexuado - ou ainda uma relação de Namoro mesmo, que dependia de conquista e merecimento. Hoje a palavra da moda é “ficar” : verbo intransigente.
É o computador virtualizando – ou melhor, o jeito impróprio que se lida com a ferramenta- deteriorando o Sentimento, destratando a Sexualidade, a interação sadia e que dá mais crédito à Vida. O Virtual enviesando o Emocional.
Fico olhando e, como escrevi, não acredito no que vejo. Não sei se a Auto-Estima resolveu pedir as contas ou se o que está acontecendo é consequência de algo chamado Repressão. Mas não pode ser; esta aconteceu ,na prática, foi social, política. Machucou muito, doeu forte, doeu fundo. Chico Buarque, Gilberto Gil e Caetano, entre muitos outros gritaram alto. Entretanto, não é para repercutir só agora.
Outro dia um garoto, num programa de TV, disse algo que considerei pertinente:" - Não se pode chamar de música. São guitarras furiosas, letras de protesto, que mostram seu lado jump, sua depressão. Está difícil." [Aliás, Tristeza, Melancolia, não existem mais; só (?) Depressão, que é um quadro delicado, em que a indução é algo a ser considerado, dado o estado em que o Emocional se encontra.]
Concordo com o que aquele jovem disse. Não se pode chamar de Música, produção, interpretação, letra. Será que o desenvolvimento virtual da vida embotou o resto? Calou o Sentimento, a sensibilidade, que são os responsáveis pela criação sadia, pela Arte, pela Poesia ?
Quando ouvi a primeira vez a "Boquinha da Garrafa", quase entrei em pânico.
Não se pode falar que aquilo tenha passado pela Censura. A coreografia, aquela garrafa era uma figura peniana, e a mulher ali, dançando. Não, não poderia ter sido permitido. Felizmente, parece que aquilo foi só (?) um surto, e depois, se a criação não melhorou, pelo menos coisas tão estúpidas, medíocres, depreciativas, não aconteceram com tanta força.
Contudo, hoje não existe arte, nas letras, nas músicas, nas interpretações. Tudo está por demais pobre. Lembro-me dos shows no UTC, Elis Regina – custo a acreditar que vi, por vezes penso que ela não existiu assim, de verdade. Gilberto Gil, encantador, encantando -nos,
Gal Costa ( ela corria descalça no palco, com um vestido vermelho, linda!), Maria Bethânia, Raul Seixas, Ney Matogrosso ,entre outros, muitos outros. Era muita joia em carne viva, aqui bem perto de nós, cara a cara.
Hoje, até a Moda saiu de si, literalmente, como citei acima. As roupas, griffes, etiquetas consideradas, mostrando modelos que exibem desordenação. Parece que a roupa rasgada, sem acabamento, demonstra o quanto está rasgado e inacabado, o Emocional, o bem- Estar, bem-Ser ; e sem dúvida, o Con-Viver .
Importante associar aqui o culto ao corpo, hoje patologicamente absorvido pelas Sociedades Feminina e Masculina; é doentia a maneira com a qual se busca a perfeição , utilizando os recursos que vão desde anabolizantes até cirurgias que buscam a estética perfeita.
Está amarrotada e encardida a ordenação e sanidade da Mente – refiro –me à sanidade psíquica , que a partir de adquirida, veste a Mente da ordem e equilíbrio para adquirir tudo que o Cérebro é capaz: e o Cérebro é capaz de tudo.
Voltando à Música, felizmente tem o Go-Back, na FM Itatiaia, a quem desinteressada e merecidamente, só nos resta elogiar. Ali se ouve Boca Livre, Elis Regina, Chico Buarque, Tom Jobim. Ali estão Gal Costa, Quarteto em Cy . Há poucos dias ouvi Kleyton e Kledir : “...fecha a luz, apaga a porta, vem me carinhar e “essa boca muito louca, pode me matar, se isso é coisa do demônio, eu quero pecar”. Se alguém souber onde eles estão, por favor , divulgue.
Milton reapareceu, graças a Deus; e não nego Marisa Monte , Djavan - um artista que não é só pra contrariar a humildade.
Temos que pensar em Maria Rita, que se revelou bem filha da mãe maravilhosa.
Unicamente canta pela própria voz e sabe encantar a gente. Entretanto, devemos enxergar que são valiosas exceções e deviam ser a regra.
Creio que é isso que nos faz resistir e gritar alto, porque algo tem que acontecer. É preciso que alguém se toque e toque a vida artística e cultural, principalmente na música, para cima, para frente, porque se fomos privilegiados, crescemos. E se ficamos grandes, temos que agir em prol do crescimento daqueles que vieram um pouco depois, e que são conseqüência de nós, que não podemos ser (nós) cegos. Definitivamente, não.

( Artigo publicado em Outubro/ 2005 - Revista Cult)

sábado, 13 de fevereiro de 2010

HOJE EU SAÍ COMIGO

Hoje eu saí comigo. Me dei um tempo para me olhar –muito além do
espelho – e ficar a fim de mim, de me conquistar, me encontrar direito, me dar uma flor, de calar a dor. Quis que fosse assim, sem olhar para os lados,
sem sentir medo, sem guardar segredo.
É, hoje eu acordei mais cedo e saí comigo. Disse para o EU que falasse com o MIM e marcássemos de sair assim, pelo dia afora e por nós adentro.
Hoje eu me abracei forte, contando comigo, sem contar com a sorte,
sem temer a morte. E aproveitei que já é janeiro, pra começar direito, me tratar com jeito.
Mas tem que pensando bem, é quase fevereiro; então eu saí pela rua com a alma nua e de corpo inteiro. E foi aí que com alegria, eu dancei pra mim e me decidi a brincar comigo e avisar que vim, sentindo alegria: que sou eu mesma e sem fantasia.
E junto bem junto a mim, tão cheia de sim, veio a auto-estima (hoje está diferente, mulher por inteiro e era uma menina !). Ainda surpresa de me ver assim, me encarei enfim .
Consegui, hoje eu criei coragem e saí Comigo. Andei com demora,
sem ligar pra hora, sem lugar pra a pressa, sem olhar pra trás.
Sem largar a paz. Vim com as mãos vazias, dispostas a tocar em Mim, sentir o meu gosto e gostar do sabor.
O sabor sadio, de saber de mim, de entrar numa sala-de-estar Comigo, vir ao meu encontro. E senti um calor que sem queimar aquece – e eu me lembro bem- isso se chama Amor. É o Amor calado, que mora sempre em nós e, graças a Deus, sem pedir licença, sem tomar a benção, sem querer ter razão. É um Amor- Amigo.
Pode crer, eu enfim saí assim, vestida de Mim e me entreguei ao gesto de me confiar. Afinal foi hoje que eu caí – ou melhor, eu levantei em mim e vi que a vida é melhor assim, é acreditar , contar comigo e me dar bem nisso. Sou meu Eu-Abrigo.
Hoje eu abri a porta, pus a razão pra fora, eu a mandei embora.
É, eu fiz folia , eu chamei a Lua pra encantar o dia. E então ela veio e encontrou o Sol , um pouco vermelho (acho que corado!) que achou por bem, seguir meu conselho: apaixonado, envolveu a Lua, que ali, clara, nua, sentiu seu calor. E eu vi de perto, que a céu aberto, fizeram Amor.
Valeu a pena ter ficado Comigo e ter me curtido. Na volta eu trouxe luz e hoje tenho certeza, que sou Eu mesma quem me conduz. E não conte pra ninguém, pois sei lá porquê, isso ficou uma coisa meio démodé :
mas , marque hora – agora! – e vá bem bonito, encontrar VOCÊ .

QUINTA, DE PRIMEIRA

Algo que sempre me trouxe satisfação, por incrível que possa parecer, caro Leitor, é ir à Feira. Em todas as cidades em que vivi ,aquele espaço sempre chamou-me a atenção.E sempre fiquei a observar o comportamento e a interação entre os Feirantes ; esta se estende além do Comercial e alcança o Social , de forma extremamente interativa e sadia.
Logo ao amanhecer, quando os Feirantes estão montando cada um o seu espaço, para expor e vender o seu produto, a relação entre eles é muito interessante. Percebe-se a Parceria , a Cooperação; a naturalidade com a qual conversam entre si e trocam idéias, assim como se auxiliam, Um suprindo a necessidade do Outro. Isto porque sabem que dali a pouco, os Clientes chegarão e deverão ser bem recebidos.
Pois bem. Começa então a Interação Comercial, a razão pela qual a Feira existe, ou seja, a Venda dos produtos. Já aqui, a relação entre os Feirantes, muda em Forma e Conteúdo. Clara, firme e inclusive de forma ousada, usam de seus recursos/ estratégia para atrair os Clientes ; normalmente, às Clientes, pois o perfil do cliente – alvo, ali, é a Mulher, a dona-de-casa. Mais interessante ainda é observar que elogios diretos, pessoais são feitos cita-se discretamente uma característica daquela que passa ( por exemplo, a cor da roupa ou qualquer outro item que ‘identifique’; e interessante também, o cunho lúdico ‘ Mulher bonita não paga – mas também não leva’ ) e faz-se diretamente a Propaganda , buscando chamar a atenção quanto à qualidade dos Produtos, bem como Preços mais acessíveis. Cada feirante recorre às Estratégias que pode, para atrair mais os Clientes ao seu espaço.[ À parte, caro Leitor. Desde o início do texto estou relutando em usar a expressão ‘ o Feirante, com a barraca armada’, Você sabe a razão. Determinadas expressões , metáforas, ganharam espaço definitivo, calando o significado
Literal que a palavra ( ou expressão) tem. Incrível, isto.]
E tal relação de Competitividade acirrada se mantém, durante todo o tempo; bem como ao final da manhã, quando está se encerrando o horário , para findar a manhã –comercial, dá-se início às ‘liquidações’ dos produtos, as ofertas. Principalmente aqui, compete-se de forma acirrada, cada um gritando a sua Proposta, buscando ganhar do Concorrente.E é espantoso e surpreendente, como isto ocorre às claras, de forma árdua
e paradoxalmente, ética.
Finaliza-se, então, o evento e é hora de serem desarmadas as barracas e partir-se para o outro dia. Igualmente aqui, pode-se comprovar a Participação, Cooperação e Solidariedade. Os Feirantes interagem, brincam , divertem-se . Críticas e comentários, referentes ao time de futebol, ao governo e alguma assunto que tenha tomado corpo naquela semana, nos jornais e assim, na Vida. E finalmente, parte-se daquele lugar para o próximo , onde começará tudo outra vez.
Creio que deveríamos tomar aquele espaço como exemplo, trazêlo para nosso cotidiano, comercial e pessoal. Penso que em toda e quaisquer relações ,mas, principalmente aquelas que envolvem Lucro, deveriam – melhor ainda, deveriam – ser tratadas de forma limpa. Não deveríamos fazer de nosso trabalho, esconderijos, com código e estratégias sigilosas.
Na Vida , afetiva,social e profissionalmente , se as Relações fossem assim ,claras, teriam, certamente, maior chance de Êxito; seria mais fácil de se lidar com o Conflito (se ou quando estes existirem). Isto porque poderíamos ter certeza que nosso Sucesso é desejado (!) pelo Outro, bem como a recíproca é verdadeira: desejamos(!) o mesmo para Ele.
E agindo desta forma, Todos sairíamos ganhando, na feira desta grande avenida – a Feira da Vida.

AS PALAVRAS RESPIRAM-NOS



Tudo em nosso idioma me encanta. As palavras – fonética, sensorial, poeticamente; a forma como se manifestam, são um laboratório meu . Nutro-me delas e observo como cirandeiam dentro e em volta da gente .
Ao pronunciá-las , temos uma intenção e acabamos por atingir outra – ou não alcançamos exatamente o que gostaríamos. Palavras além de falar, dizem ; dependendo do que falamos, além de escutados, somos ouvidos: são coisas bem diferentes.
Tenho um problema sério com as palavras ditas em inglês, aqui no Brasil. Já disse Justine Espírito Santo ( quem se interessar, entre no frasesilustradas, por Céo Pontual; ou tem tb o frazz.com ) já disse: ‘De tudo o que você diz em português as pessoas duvidam ‘ . Eu complemento : tudo o que vc diz em Português, as pessoas desprezam. Infelizmente, é isto. Mas quero aqui comentar sobre isto da Vida que as Palavras têm e o que como se manifestam prefiro repetir esta, aqui, em razão do significado dela. ‘Manifestar-se’ está ligado à Coragem e a esta é Ousada . Como as Palavras são , em nosso lindo – lindo! - idioma.
Observe como Lânguido , escorre, desliza , quando falamos. Sôfrego, está ligado a sedento, este pode até mesmo ser seu sinônimo.[Por falar em Sinônimo, lembrei-me que não considero o Ódio o antônimo de Amor . Isto porque se o Amor é o sentimento mais sublime, seu antônimo é a Inveja, o pior e um dos mais perigosos Sentimentos. É citado o Ódio, como o contrário do Amor, mas na gramática da Vida está errado. O Ódio é um sentimento manifesto, quando Alguém sente pelo Outro, não consegue esconder : e mostra-se. E assim, a Relação é resolvida. Tem duas alternativas: ou tudo soluciona-se , em diálogo, pondo tudo em pratos limpos ou definitivamente afasta-se , já que a Relação é inviável. A Inveja, não. É um sentimento latente, escondido, estratégico. Age com perspicácia, ludibria e engana. Trai. Por isto é perigosa e a mais feia das Palavras, sendo assim o antônimo do Amor – o mais sagrado dos Sentimentos. ]
Voltando e aproveitando a deixa [ e veja que esta palavras tem dois significados: o verbal que adveio da Linguagem e outra – a que usei – que foi ‘ criada ‘ por nós ( e adoro palavras que o Sentimento define !]); voltando, aproveitando a deixa, veja como Inveja está associada a Imposto, uma palavra rude, rígida Sim, porque a Inveja nunca é gratuita, voluntária, proposital . Nunca. Está ligada a sérios – e graves - comprometimentos quase que sempre, de ordem Emocional.
Como é comum, quando escrevo, viajei; mas darei seguimento ao que expunha .Veja Você se a palavra Afago não te acolhe, envolve, acaricia; e aproveitando esta, ouça como Carícia envolve a gente, ampara, acolhe.E está ligada , me lembra Gesto , que é um som doce, fala sempre de um movimento de Solidariedade ou até mesmo, Afago .E um gesto de afago ,dispensa qualquer palavra – sem querer ofendê-las.
Citando estas coisas tão boas, fui para o sentimento-antônimo – Gesto nunca é imposto e pensei no Imposto, que como verbo e substantivo (!) é uma palavra rude, forçosa. Machuca. E a ela dá seguimento, a outra que não gosto de ouvir de forma alguma : rancor.Esta significa lembra mágoa, nódoa no Coração . Todas estas das quais falei mal, pra mim, estão ligadas a Conflito.Só pra fechar isto aqui, citarei outra que pressinto mal , a Fuga , uma palavra-sentimento
enganado, fraco . No meu dicionário-afetivo, eu a vinculo sempre a Medo e Discórdia – e que é o pior de tudo: quando discordamos de nós mesmos.
Mas nesta brincadeira, experimente agora sentir se Veloz ; remete -nos a Ágil e não é por ser sinônimo; é mais do que isto. Da mesma forma, sinto que Alienação é uma substantivo-sentimento .E talvez pelo sentimento-antônimo, sinto uma que gosto muito , a palavra Resgate. Ela sempre traz de novo, faz-nos sentir Persistência, Dedicação. E nunca se pensa/ouve/sente o resgate do Ódio, do Rancor, da Tristeza. Não. É sempre o resgate do Amor, do Valor, da Vida. Resgate é uma palavra que está mais do que ligada a Cidadania – termo difícil e árduo de exercitar-se; tem quase algo de Sagrado a ver com isto. Talvez seja porque, por mais ligado que esteja à Sociedade; e infelizmente não está mais assim tão próximo das atitudes dos seres por assim escrever,que não são mais tão Humanos .Cidadão hoje quase quer dizer gente- em- extinção ...
Para concluir isto aqui ( se deixar , acho que me entrego para algum terapeuta que esteja lendo isto, pela associação de idéias...) citarei duas entrevistas muito boas do meu Enjôo Soares - é o apelido que um grande amigo, neurologista/cientista na Profissão e na Vida - colocou nele e de certa forma, concordo .
A primeira foi com Maria Beltrão – jornalista e apresentadora – uma figura ímpar, que justamente comentou isto da sua conduta ter mudado uma linha da apresentação.Segundo ela, a Notícia não necessariamente deve ser carrancuda ,séria ( ela fez uma perfeita associação das palavras!) – e quando se fala em Notícia no que diz respeito a Economia, sempre associamos a algo de não pode ser apresentado sem seriedade e sim, mais formalmente .E ela gosta do reverso, de aproveitar bem os ‘ deslizes’ e imprevistos. Inclusive, foi apresentada gravação de uma notícia da Fátima Freire, que foi realmente marcante, hilária para ela e para nós: a mesma não conseguiu parar de rir e a notícia foi ao ar . Enfim, toda a entrevista de Maria Beltrão, foi focada nisto de Expressões, Palavras,Entonação .
E depois o programa foi concluído com a presença de Odete Vieira, recém-formada em Direito, uma profissional muito inteligente que acaba de concluir um curso tão significativo – e que já demonstra uma grande aptidão para o ofício. Com uma ressalva: a primeira coisa que ela terá que defender a própria causa ,demonstrando que está pronta para exercício da profissão. Isto porque ela formou-se agora, com 84 anos.
A entrevista demonstrou uma Mulher ímpar, astuta e justamente (!) em razão da idade , demonstrou ter uma relação( sou obrigada a parar aqui e comentar do que sempre digo sobre esta palavra linda. Você deve concordar comigo : Relação deve ter advindo o verbo Relar, tocar o Corpo do Outro com zelo – relar toca o Coração )comentar desta saudabilíssima com a Vida ; pretende fazer mestrado e doutorado, com o propósito de defender causas referentes a questões políticas, as quais ela não concorda... E acabei entendendo isto da idade : é filha de uma Índia . E uma das frases de Antônio Callado que concordo muito é que ‘ Os índios fascinam a gente porque são anteriores ao Tempo ‘. Foi exatamente isto.
‘ Todavia’ – fecharei com esta palavra, porque embora quase que antiquada, esta me lembra convicção do que está sendo exposto – algo me chamou mais a atenção. Em contato com um jovem, ele teria citado algo acerca de sexualidade e idade e ela respondeu-lhe : ‘ O meu brinquedo é de abrir e fechar, o seu é de armar ‘. A rima e a procedência – e a sagacidade das palavras com as quais ela respondeu , foram fantásticas.


Concluindo, naquela madrugada, fui testemunha de que as palavras ali ditas por ela firmaram uma frase ( eu e minhas citações... mas são precisas)
citada por Pablo Picasso, que deveria estar impressa na carteira de identidade de todo e qualquer Indivíduo : ‘ Leva-se muito tempo para ser Jovem .’ Nesta frase estão contidas duas palavras valiosa , as quais dominam-nos e estão diretamente ligadas à Propriedade de nossa trajetória : Tempo e Verdade.

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

ESTRELA-ELIS , ESTRELA-VIVA

Quando do artigo 'Nada é Imperfeito', citei que a Rede Globo,algumas vezes nos
surpreende. Embora ao invés de formar/transformar, venha deformando valores , vez por
outra demonstra ciência de sua responsabilidade para com a Cultura. Assim foi com o
especial 'Por toda a Minha Vida' , em homenagem a Elis Regina e um presente de valor
desmedido a nós,Telespectadores.
O programa sublinhou em mim muitas lembranças e principalmente a certeza de
que sou de uma geração privilegiada. Assistimos no Uberlândia Tenis Clube, entre
outras estrelas, Elis Regina,Caetano, Gal Costa, Ney Matogrosso, Maria Bethânia,
Quarteto em Cy . Pode-se dizer que ali, só uma estrela não esteve - Chico Buarque de
Hollanda. Entretanto, ele já brilhava país afora, em forma e conteúdo de suas
composições.
Foi numa época em que haviam anualmente as Olimpíadas da Universidade
Federal de Uberlândia e ali aconteciam os shows, maravilhosos. E cabe citar que era um tempo em que os Campus pulsavam, existiam. Hoje não é bem assim. O Campus
Umuarama está diferente, a sensação é que o curso de Medicina adoeceu um pouco e o
de Psicologia não anda pensando bem. Mas deixe-me parar por aqui, senão você, Leitor,
com direito dirá que há desconforto no meu peito. Há, sim, mas você não precisa contar pra ninguém; que fique só entre nós dois.
Voltemos a Elis, pois. Foi muito bem citado no show, por amigos, quando afirmaram
que Elis era realmente a música que interpretava. Parecia que além de cantar para nós,cantava também para si própria. Fechava os olhos e dedicava - ou entregava-se - dava para sentir que nutria-se da própria voz. Encantava- nos , en- cantando- se .( "Como se fora brincadeira de roda...memória, jogo do trabalho na dança das mãos...macias,o suor dos corpos, na canção da vida...história ! )
Elis no palco - lembro-me como se fosse hoje, vestida de azul, no show Falso
Brilhante. Este era o nome do show, porque falsa nunca e brilhante, brilhante sempre,
era Elis. E fundiam-se palco e plateia, con- sentimento da Arte , os ouvidos degustando a voz.
Franca ( costumo dizer que a franqueza é a sinceridade com TPM) esta era uma das
características peculiares de Elis. Contudo, para amenizar o que escrevo, direi que ela era sinceramente franca. Falava da desordem social, da ditadura, da hipocrisia e creio que é impossível mesmo falar disto de outra forma, em se tratando de uma artista expondo o que realmente sentia. Nunca me doeram, pois, as palavras duras e a
entonação da voz, quando em entrevistas e shows ( '...o suor da vida, no calor de irmãos... magia ! ... )
Se Estrela, tinha cinco pontas e sua voz fincava. Mas nunca por hipocrisia ou
ideologia roucas, não. Firme, determinada , expressava-se claramente . Além de sorrir,ria e assim, demonstrava um quê de sarcasmo. Marcante e marcada, era Elis. Presumo que deva ser difícil ser Artista /Humano, numa mão só da rodovia, de forma terna. Se a Razão e Emoção emergem sempre juntas, gritam disputando o Poder, a Agonia entra em cena. E aí, apalpa-se atrevidamente muito dissabor - e isto ela fazia - e advém então , a Amargura . A realidade dói e a Lucidez acha por bem sair de cena.
Quando se existe, exata e humanamente, se a Arte raciocina - a Arte não pode se
meter a pensar bem!- e através dela vivencia-se o conflito dentro e fora de si , a
consequência é a dor . Contudo,esta, analgésico nenhum cala. Ela vai tornando-se
crônica, sai do latente para o manifesto; é ardente, desprovida de preceitos .
Principalmente esta é uma dor sem vergonha. Já que causada pela inteligência e
sensibilidade aguçadas,esta vive dando a cara pra Vida bater e acaba pois, se
sobrepondo ao barulho do aplauso, ainda que forte . ( ".... Como um animal, que sabe da floresta...memória ! ,redescobrir o sal que está na própria pele, redescobrir o doce no lamber das línguas... " )
Um intervalo, aqui. A música Atrás da Porta ,foi um grande sucesso,interpretado
por Elis. Sua interpretação - vocal e cênica- demarcou a história de sua carreira.Foi uma das vezes em que vi, ouvi e comprovei que isto acontece com todos: é nítida a sensação,quando, ao sairmos de um show, sentirmos que estamos maiores do que quando compramos o ingresso. É como se o brilho nos iluminasse , acrescendo-nos. Era assim que acontecia.
Foi dito que 'se o coração, se pudesse pensar, pararia'. Parou pois, o coração de
Elis e naquele dia, um País inteiro ,relutando a perda , calou-se também. Foi-se embora a Estrela que andava vestida de gente. ( ' ... redescobrir o gosto e o sabor da festa... magia ! )
E na especial da Globo,vimos Mièle com os olhos vermelhos, na última cena do
programa, falar o que um Brasil inteiro queria pedir em coro- luto coletivo- frente ao corpo da intérprete/estrela. Mièle tentou e tentou, mas não conseguiu sorrir e balbuciou frente a pergunta do repórter, acerca de ' o que é que ele teria a dizer a Elis,hoje'. ( ' entender que tudo é nosso, sempre esteve nosso...história, somo a semente, ato, mente e voz... magia !" Letra- REDESCOBRIR - Gonzaquinha ).
Demonstrava no rosto o inconformismo, o luto não- elaborado,inaceito e olhando
firmemente magoado, pediu: " - Canta, Elis. Canta."
Maristela Dias da Cunha


GRITO POR CARNAVAL

Alinhar à direita

                                                     Grito por Carnaval
Sabemos que o Carnaval faz parte – uma parte boa – da nossa história, da estória ( lembra-se ? lembra-se de história sem ‘ h’ ?) da nossa terra. Tem grande e rico significado para a Cultura brasileira . Sem duvida,isto é indiscutível.
Pertinente seria discutir se isso que vem ocorrendo de muitos anos para cá, pode ser chamado de Carnaval. Se alguém disse que é, eu digo: é mentira.
Há muitos anos, o ginásio do Praia Clube – inúmeros uberlandenses são testemunhas – recebia pessoas, blocos que se fantasiavam de uma Alegria contagiante; dava para tocá-la com as mãos. O próprio ginásio, calado, aguardava os foliões que adentravam o clube. Eram Mágicos, Bailarinas, Palhaços – e nos rostos havia a magia, sim. As Bailarinas dançavam a Alegria, sim e os Palhaços vestiam no Corpo e na Alma a Fantasia, sim [ “ ...e um dia, afinal, tinham direito a uma alegria fugaz, uma ofegante epidemia, que se chamava Carnaval” – Vai Passar / Chico Buarque] .
Já passou, tento me convencer – sem querer - que já passou . Mas quem vivenciou esta época, é testemunha em carne viva da qualidade daquela festa, da quantidade daquela Vida. Com a Alegria estampada nos rostos, com confete e serpentina, os corpos dançavam as músicas apropriadas, naqueles quatro dias incansáveis – sem falar nas matinês- nas quais muitos de nós estavam presentes, cantando e dançando a Vida, encantada que é ( É, sim).
Uma reportagem do Fantástico, há muitos anos, mostrou um grupo de trigêmeas brasileiras que brilham na Europa, cantando as verdadeiras marchinhas de Carnaval. O mundo tem-nas aplaudido e estão fazendo sucesso lá fora; contagiando com um ritmo que é só nosso e tentando, com o Coração, fazer com que os pés e os quadris dos Estrangeiros dancem com uma cadência que, indubitavelmente, é Nossa.
Mudar o ritmo da história do Carnaval no Brasil, guardadas as devidas proporções, é alterar a nossa história cultural, alterar nossa bandeira. A Sociedade e as Instituições que lidam com a Música, deverão entender isto. Uma verdade, a esse respeito, já foi dita: “ A Música é como o Pão: elementar, santo e de todos”.[Tristão da Cunha]. E a história da Música, dos eventos regionais e nacionais, não pode ser negligenciada. História, inclusive musical, faz parte do passado que sempre está presente e sempre, dará futuro.
Restou uma ‘globeleza’ que não ginga com a mesma cadência que talvez seja inimitável – Valéria Valenssa . E muito menos, quase nada, traz as cores trabalhadas no corpo, tendendo mais à erotização e não a Arte . O que deveria ser diferente, porque a Globo , naqueles poucos segundos valiosos, prefacia um trabalho valioso: os Desfiles das Escolas de Samba.
E as E-S-C-O-L-A-S são assim denominadas porque ensinam, através de um ritmo genuinamente brasileiro, temas que enfatizam o valor do nosso País e as riquezas nele contidas. Assistindo há pouco o desfile de uma das escolas paulistas, tenho que sublinhar o que foi dito pelo Comentarista, referindo-se a uma das Escolas que valorizou a Passarela : ‘...é um trabalho encantado. Traz história,cultura,valores e apreço . É um planeta de Luz.” E as Escolas de Samba, também prezam as letras da Músicas, reforçando valores sócio-político-culturais que a Passarela e o Povo devem cantar forte, cantar alto, que assim ‘ a Vida vai melhorar, a Vida vai melhorar.’
Retomando o que estava sendo dito, nos manteremos calados? Privaremos os Filhos, a jovem sociedade que aí está, do privilégio e mérito que tivemos? Aceitaremos isto de descabido que tem sido dito, que ‘Carnaval é coisa do passado?’
Não; ritos,mitos, heróis, História e Arte, tudo está contido e morrer isto também é crime. Não podemos calar a boca – contar e cantar bobagens – e cruzar os braços, seria cômodo e grave demais.Depreciativo e caro. Precisamos reerguer essa bandeira.
São quatro dias ímpares – quatro, mas ímpares. Faz parte do Passado, tem que estar Presente, como citado e vai enriquecer o Futuro [ ‘ ...que aqui passaram sambas imortais, que aqui sangraram pelos nossos pés, que aqui sangraram nossos ancestrais”- Vai Passar / Chico Buarque]
Faz parte da estima Social e Coletiva pela Poesia, pela Música, por uma História entoada que deve ser tocada País afora. Já que é bandeira, há que ser prezada com muito Orgulho [¨ Se a guerra for declarada, em pleno domingo de Carnaval, verás que um Filho não foge à Luta, Brasil recruta, o teu pessoal” – Rio 42º / Chico Buarque].
Maristela Dias da Cunha
* Por vezes me passa pela cabeça entregar os pontos, mas não vou. Quem sabe sugeriria que, nesta época do ano, se cantasse algo como ‘bota camisinha, bota meu amor...” Isto para mostrar que em nosso Carnaval. há décadas e décadas , expõe claramente – e numa linguagem lúdica – o que ocorre de grave e deve ser falado o ano inteiro. Temas voltados para o Cotidiano, o Social, a Saúde. Os Sentimentos , a Alegria, a Tristeza, mas com um ritmo e cadência deliciosamente típicos desta festa. Por isto, no ritmo da marchinha cantada há décadas,” bota camisinha, bota meu amor " , mas que não seja pra ficar e sim pra fazer AMOR.