Quando do artigo 'Nada é Imperfeito', citei que a Rede Globo,algumas vezes nos
surpreende. Embora ao invés de formar/transformar, venha deformando valores , vez por
outra demonstra ciência de sua responsabilidade para com a Cultura. Assim foi com o
especial 'Por toda a Minha Vida' , em homenagem a Elis Regina e um presente de valor
desmedido a nós,Telespectadores.
O programa sublinhou em mim muitas lembranças e principalmente a certeza de
que sou de uma geração privilegiada. Assistimos no Uberlândia Tenis Clube, entre
outras estrelas, Elis Regina,Caetano, Gal Costa, Ney Matogrosso, Maria Bethânia,
Quarteto em Cy . Pode-se dizer que ali, só uma estrela não esteve - Chico Buarque de
Hollanda. Entretanto, ele já brilhava país afora, em forma e conteúdo de suas
composições.
Foi numa época em que haviam anualmente as Olimpíadas da Universidade
Federal de Uberlândia e ali aconteciam os shows, maravilhosos. E cabe citar que era um tempo em que os Campus pulsavam, existiam. Hoje não é bem assim. O Campus
Umuarama está diferente, a sensação é que o curso de Medicina adoeceu um pouco e o
de Psicologia não anda pensando bem. Mas deixe-me parar por aqui, senão você, Leitor,
com direito dirá que há desconforto no meu peito. Há, sim, mas você não precisa contar pra ninguém; que fique só entre nós dois.
Voltemos a Elis, pois. Foi muito bem citado no show, por amigos, quando afirmaram
que Elis era realmente a música que interpretava. Parecia que além de cantar para nós,cantava também para si própria. Fechava os olhos e dedicava - ou entregava-se - dava para sentir que nutria-se da própria voz. Encantava- nos , en- cantando- se .( "Como se fora brincadeira de roda...memória, jogo do trabalho na dança das mãos...macias,o suor dos corpos, na canção da vida...história ! )
Elis no palco - lembro-me como se fosse hoje, vestida de azul, no show Falso
Brilhante. Este era o nome do show, porque falsa nunca e brilhante, brilhante sempre,
era Elis. E fundiam-se palco e plateia, con- sentimento da Arte , os ouvidos degustando a voz.
Franca ( costumo dizer que a franqueza é a sinceridade com TPM) esta era uma das
características peculiares de Elis. Contudo, para amenizar o que escrevo, direi que ela era sinceramente franca. Falava da desordem social, da ditadura, da hipocrisia e creio que é impossível mesmo falar disto de outra forma, em se tratando de uma artista expondo o que realmente sentia. Nunca me doeram, pois, as palavras duras e a
entonação da voz, quando em entrevistas e shows ( '...o suor da vida, no calor de irmãos... magia ! ... )
Se Estrela, tinha cinco pontas e sua voz fincava. Mas nunca por hipocrisia ou
ideologia roucas, não. Firme, determinada , expressava-se claramente . Além de sorrir,ria e assim, demonstrava um quê de sarcasmo. Marcante e marcada, era Elis. Presumo que deva ser difícil ser Artista /Humano, numa mão só da rodovia, de forma terna. Se a Razão e Emoção emergem sempre juntas, gritam disputando o Poder, a Agonia entra em cena. E aí, apalpa-se atrevidamente muito dissabor - e isto ela fazia - e advém então , a Amargura . A realidade dói e a Lucidez acha por bem sair de cena.
Quando se existe, exata e humanamente, se a Arte raciocina - a Arte não pode se
meter a pensar bem!- e através dela vivencia-se o conflito dentro e fora de si , a
consequência é a dor . Contudo,esta, analgésico nenhum cala. Ela vai tornando-se
crônica, sai do latente para o manifesto; é ardente, desprovida de preceitos .
Principalmente esta é uma dor sem vergonha. Já que causada pela inteligência e
sensibilidade aguçadas,esta vive dando a cara pra Vida bater e acaba pois, se
sobrepondo ao barulho do aplauso, ainda que forte . ( ".... Como um animal, que sabe da floresta...memória ! ,redescobrir o sal que está na própria pele, redescobrir o doce no lamber das línguas... " )
Um intervalo, aqui. A música Atrás da Porta ,foi um grande sucesso,interpretado
por Elis. Sua interpretação - vocal e cênica- demarcou a história de sua carreira.Foi uma das vezes em que vi, ouvi e comprovei que isto acontece com todos: é nítida a sensação,quando, ao sairmos de um show, sentirmos que estamos maiores do que quando compramos o ingresso. É como se o brilho nos iluminasse , acrescendo-nos. Era assim que acontecia.
Foi dito que 'se o coração, se pudesse pensar, pararia'. Parou pois, o coração de
Elis e naquele dia, um País inteiro ,relutando a perda , calou-se também. Foi-se embora a Estrela que andava vestida de gente. ( ' ... redescobrir o gosto e o sabor da festa... magia ! )
E na especial da Globo,vimos Mièle com os olhos vermelhos, na última cena do
programa, falar o que um Brasil inteiro queria pedir em coro- luto coletivo- frente ao corpo da intérprete/estrela. Mièle tentou e tentou, mas não conseguiu sorrir e balbuciou frente a pergunta do repórter, acerca de ' o que é que ele teria a dizer a Elis,hoje'. ( ' entender que tudo é nosso, sempre esteve nosso...história, somo a semente, ato, mente e voz... magia !" Letra- REDESCOBRIR - Gonzaquinha ).
Demonstrava no rosto o inconformismo, o luto não- elaborado,inaceito e olhando
firmemente magoado, pediu: " - Canta, Elis. Canta."
Maristela Dias da Cunha
sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010
Assinar:
Postar comentários (Atom)
Belíssimo!!!
ResponderExcluirNão tenho o hábito de ler blog's, ou mesmo jornais e revistas. TV, não tenho há 7 anos (não me faz falta). Não acredito nas "verdades" contadas frente às câmeras ou fabricadas entre as paredes de uma redação, mas tenho que admitir que ainda existem verdades puras (não absolutas) contadas por pessoas com sensibilidade e doçura.
Após ler seu texto "Estrela-Elis, Estrela-Viva" em seu blog, tambem fiquei maior, como em sua saida do show, e me remeti aos tempos de Elis...eu adorava aquela mulher, e depois disso passo a gostar de mais uma mulher, você. Que Miele e Elis me perdoem mas aqui vou parodiar o primeiro: Escreva, Maristela, escreva.
Zeca