A meu modo de ver - e investiguei, inúmeras pessoas concordam comigo - a Moda -a Criação - saiu de si e está meio em surto. A criação que envolve e atinge a moda musical, estética . O Estilismo, é um exemplo . O Estilista é um Artista. E assim, sente o cheiro social do que está acontecendo e , a partir daí, Cria . Os Conceitos, Valores, estão rasgados. Desfiados. Encardidos também, estão encardidos , pra não falar que estão sujos .
Fico olhando, magoada o que está acontecendo agora, cultural e poeticamente, na vida dos jovens. E me pergunto: por que o nosso privilégio?
Lembro-me de um tempo em que no nosso Praia haviam muitas lanchas lindas ancoradas na Eclusa, e a moçada subia o rio esquiando e muito, muito se divertiam, de forma inteiramente sadia.
O Carnaval , quatro noites – e duas matinês - onde corríamos atrás da Alegria, em blocos que contagiavam a Fantasia. Letras de músicas e ritmos próprios , bandas que se prendiam à característica daqueles quatro dias que faziam parte realmente do Carnaval. Coisa do Brasil. O ginásio do clube continua lá, hoje modernizado ; contudo , sei que também guarda em si , embora calado, a ‘
a saudade das noites onde a serpentina, o confete e o ritmo levavam os corpos a saírem – de forma saudável – de Si. Quem vivenciou tem saudade. Arde, mas é uma boa lembrança.
No Fantástico, foi apresentada uma reportagem significativa, de um grupo musical – trigêmeas brasileiras, jovens – que está fazendo sucesso na Europa. Cantam marchinhas de Carnaval e farão sucesso, de fora do país para depois, dentro dele.
Retomando, as Moças ( sei lá porquê, foram privilegiadas, e só começavam a se envolver sexualmente, quando o sentimento existia de verdade -existia tesão também entre os braços, no coração ) usavam um vestidinho chamado "micro-saia", que se eu te contar o tamanho, você não acredita! Ousadia, aceito que fosse, mas imoralidade não. A Moral está além do comprimento das roupas, senão ela sobe e desce de um dia para o outro e não é o caso. Moral é um bem que depois de adquirido, não se perde. Cabe falar também que a sociedade Masculina, diferia em forma e conteúdo, de hoje.
Um sucesso foram as Gincanas, organizadas e muito legais, com os carros de cada equipe igualmente pintados. Estas tinham objetivos para serem cumpridos, de cunho cultural, social, lúdico, sadio. Uma Juventude que em muito existiu, com mais qualidade da vida e eram lindos .
Das "soirées", no Uberlândia Clube, nem te conto. A cada vez que a gente olhava Um para o Outro, era uma taquicardia deliciosa; se tiradas para dançar, então era um prêmio, e as conseqüências dali adviriam. Uma Amizade - digo que a Amizade é o Amor assexuado - ou ainda uma relação de Namoro mesmo, que dependia de conquista e merecimento. Hoje a palavra da moda é “ficar” : verbo intransigente.
É o computador virtualizando – ou melhor, o jeito impróprio que se lida com a ferramenta- deteriorando o Sentimento, destratando a Sexualidade, a interação sadia e que dá mais crédito à Vida. O Virtual enviesando o Emocional.
Fico olhando e, como escrevi, não acredito no que vejo. Não sei se a Auto-Estima resolveu pedir as contas ou se o que está acontecendo é consequência de algo chamado Repressão. Mas não pode ser; esta aconteceu ,na prática, foi social, política. Machucou muito, doeu forte, doeu fundo. Chico Buarque, Gilberto Gil e Caetano, entre muitos outros gritaram alto. Entretanto, não é para repercutir só agora.
Outro dia um garoto, num programa de TV, disse algo que considerei pertinente:" - Não se pode chamar de música. São guitarras furiosas, letras de protesto, que mostram seu lado jump, sua depressão. Está difícil." [Aliás, Tristeza, Melancolia, não existem mais; só (?) Depressão, que é um quadro delicado, em que a indução é algo a ser considerado, dado o estado em que o Emocional se encontra.]
Concordo com o que aquele jovem disse. Não se pode chamar de Música, produção, interpretação, letra. Será que o desenvolvimento virtual da vida embotou o resto? Calou o Sentimento, a sensibilidade, que são os responsáveis pela criação sadia, pela Arte, pela Poesia ?
Quando ouvi a primeira vez a "Boquinha da Garrafa", quase entrei em pânico.
Não se pode falar que aquilo tenha passado pela Censura. A coreografia, aquela garrafa era uma figura peniana, e a mulher ali, dançando. Não, não poderia ter sido permitido. Felizmente, parece que aquilo foi só (?) um surto, e depois, se a criação não melhorou, pelo menos coisas tão estúpidas, medíocres, depreciativas, não aconteceram com tanta força.
Contudo, hoje não existe arte, nas letras, nas músicas, nas interpretações. Tudo está por demais pobre. Lembro-me dos shows no UTC, Elis Regina – custo a acreditar que vi, por vezes penso que ela não existiu assim, de verdade. Gilberto Gil, encantador, encantando -nos,
Gal Costa ( ela corria descalça no palco, com um vestido vermelho, linda!), Maria Bethânia, Raul Seixas, Ney Matogrosso ,entre outros, muitos outros. Era muita joia em carne viva, aqui bem perto de nós, cara a cara.
Hoje, até a Moda saiu de si, literalmente, como citei acima. As roupas, griffes, etiquetas consideradas, mostrando modelos que exibem desordenação. Parece que a roupa rasgada, sem acabamento, demonstra o quanto está rasgado e inacabado, o Emocional, o bem- Estar, bem-Ser ; e sem dúvida, o Con-Viver .
Importante associar aqui o culto ao corpo, hoje patologicamente absorvido pelas Sociedades Feminina e Masculina; é doentia a maneira com a qual se busca a perfeição , utilizando os recursos que vão desde anabolizantes até cirurgias que buscam a estética perfeita.
Está amarrotada e encardida a ordenação e sanidade da Mente – refiro –me à sanidade psíquica , que a partir de adquirida, veste a Mente da ordem e equilíbrio para adquirir tudo que o Cérebro é capaz: e o Cérebro é capaz de tudo.
Voltando à Música, felizmente tem o Go-Back, na FM Itatiaia, a quem desinteressada e merecidamente, só nos resta elogiar. Ali se ouve Boca Livre, Elis Regina, Chico Buarque, Tom Jobim. Ali estão Gal Costa, Quarteto em Cy . Há poucos dias ouvi Kleyton e Kledir : “...fecha a luz, apaga a porta, vem me carinhar e “essa boca muito louca, pode me matar, se isso é coisa do demônio, eu quero pecar”. Se alguém souber onde eles estão, por favor , divulgue.
Milton reapareceu, graças a Deus; e não nego Marisa Monte , Djavan - um artista que não é só pra contrariar a humildade.
Temos que pensar em Maria Rita, que se revelou bem filha da mãe maravilhosa.
Unicamente canta pela própria voz e sabe encantar a gente. Entretanto, devemos enxergar que são valiosas exceções e deviam ser a regra.
Creio que é isso que nos faz resistir e gritar alto, porque algo tem que acontecer. É preciso que alguém se toque e toque a vida artística e cultural, principalmente na música, para cima, para frente, porque se fomos privilegiados, crescemos. E se ficamos grandes, temos que agir em prol do crescimento daqueles que vieram um pouco depois, e que são conseqüência de nós, que não podemos ser (nós) cegos. Definitivamente, não.
( Artigo publicado em Outubro/ 2005 - Revista Cult)
domingo, 14 de fevereiro de 2010
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