Você já está acostumado, meu Caro Leitor, às confissões que aqui te faço; contudo, acerca desta não te peço segredo, como em tantas outras sempre contei com seu absoluto sigilo e peço-lhe que não comente com ninguém. Ao contrário, esta você pode espalhar, pois minha intenção é relatar e que os ouvidos lá fora escutem - bem . Isto porque ninguém tem ciência da interpretação de José Mayer - mais esta !
Noite destas, tive uma insônia que tornou a madrugada de quinta-feira, de primeira. Isto aconteceu porquê, sem sono, liguei a TV e lá estava José Mayer, no Programa do Jô,comentando acerca da peça ' Um Boêmio no Céu'. Este trabalho proporciona-nos a honra de conhecer mais acerca de Catullo da Paixão Cearense,músico/ poeta/escritor/intérprete/ boêmio , papéis perfeitamente cumpridos, com a magia que é bem própria dos Artistas. Foi uma Madrugada de Acordes, como nominei - uma das mais lindas madrugadas que já tive.
E o mais surpreendente disto, foi a voz que entoou a pauta musical, nas letras ricas , num tom de voz ímpar e até então - melodicamente - por nós desconhecido. O ator José Mayer, já merecidamente reconhecido nos palcos e na televisão, desta vez , demonstra uma interpretação vocal/musical tão valiosa ,que deixou a Plateia extasiada. Sua atuação foi efusivamente aplaudida , demonstrando na palma da mão
o encantamento de quem teve o privilégio de ouvi-lo . ( " Ontem ao luar, nós dois em plena solidão, tu me perguntaste, o que era a dor de uma paixão.Nada respondi. Calmo assim fiquei!Mas fitando o azul...")
Não sei dizer-lhe por quantas vezes, virtualmente, busquei o Programa do Jô e vi/ouvi/revi a matéria; bem como enviei-a a todos os meus amigos, que não tiveram o privilégio de assistir, naquela noite. E ainda assim - ou por isto - não me contive. Sabendo que neste domingo seria a última apresentação da temporada, não hesitei e embarquei para São Paulo, para assistir a 'Um Boêmio no Céu'. ( ...do azul do céu, a lua azul eu te mostrei...Mostrando a ti,dos olhos meus correr senti, uma nívea lágrima e assim, te respondi".)
Eu sempre tive uma relação de Amor com o Teatro. Nas inúmeras e maravilhosas peças que já vi, por muitas vezes, aconteceu de ,inesperadamente, sentir-me no palco. De um jeito que só eu sinto( acho que isto eu não deveria contar pra ninguém, então aqui te peço segredo, amigo Leitor) , dentro de mim, por vezes, invado o Palco e tenho que trazer-me de volta: meu sentimento é aquele que habita o Ator. Sou Ele .
A Alegria, a dor, o Medo e inúmeros outros sentimentos ali interpretados, se apoderam de Mim . Acontece, outras vezes, de o meu Eu entremear-se ao Outro e sentir que sou Plateia, não consigo mais ser Singular .É isto, torno-me Plural e sinto mais,sinto muito. Sou Nós. Talvez isto aconteça, em razão da Psicologia ensinar-nos acerca da Inversão de Papéis: colocarmo-nos no lugar do Outro . Então,junta o que aprendi com ciência, quanto ao que sei com sentimento e aí...
E assim foi , naquela noite.Foi exatamente assim, no início da peça,quando a voz do Ator adentra o teatro e ele surpreende a Plateia-passa por nós - caminhando em direção ao palco. Na abertura da peça , tal qual havia ocorrido no Programa do Jô, ele privilegia uma mulher ( sendo contraditória à linha na qual estou redigindo , escrevi 'mulher', em caixa baixa; guarde segredo também aqui, querido Leitor - foi por impura inveja minha. Como eu queria estar no lugar dela!) em pública serenata, olhando-a firmemente .Comovente. Galanteador. Romântico. Firme e contraditoriamente, Doce. Sedutor e ao mesmo tempo, terno. ( "A dor da paixão, não tem explicação! Como definir, o que só sei sentir!É mister sofrer,
para se saber, o que no peito, o coração, não quer dizer.")
Seguramente, o ator José Mayer encontrou-se no papel que interpretou. Daí, a sintonia ,coerência, segurança e autenticidade com as quais incorporou Catullo ,poetica/musicalmente . Presumo que este seja mais um privilégio do Ator : ao estudar o perfil de quem interpretará, estende -se ,pela descoberta de Valores, Conceitos,Perfis . Através do papel, desvenda o mistério de múltiplas personalidades, aperfeiçoando-se, como Indivíduo. Pós-gradua-se em Ser.
E aqui, é imprescindível que seja ressaltada, a forma com a qual o Poeta enaltece as Mulheres
( é, as Mulheres!!!) fazendo delas Estrelas às quais ele, humilde e perdidamente apaixonado, se rendia. Creio que na época, a Figura Feminina sequer podia sentir-se traída, dada à entrega do Poeta, de Corpo e Alma.
E Nós, da Platéia , não tivemos outra alternativa , senão sentirmo-nos lisonjeadas , apoiando Catullo, a Poesia , a Boêmia e a sua intensa capacidade de Amar. O Sentimento estendia-se do muito ao todas. (" Pergunta ao luar, travesso e tão taful, de noite a chorar, na onde toda azul,pergunta ao luar, do mar a canção : qual o mistério que há na dor de uma paixão ?")
Só um privilégio o Ator não tem, este é só Nosso. Ele não possui a quase que sagrada , eu diria, condição de deixar o Intérprete ali atuando e por alguns segundos, ser Plateia; sentindo, assim a Emoção incontrolável que toma conta de Nós, comandando-nos deliciosamente. Somos tragados pela Arte,sem o desejo e o direito de resistirmos- felizmente!
Concluindo, o trabalho ,advindo de muito empenho, pesquisa , determinação e lógica, redundou
em algo absolutamente distinto disto. Transformou-se em horas de encanto e encontro com o Poeta, vivo;uma interpretação conjunta que enobreceu-encheu de Luz!- aquele espaço e em razão da interação , tornam Palco e Plateia, um só Corpo. ( "Se tu desejas saber o que é o amor e sentir o seu calor, o amaríssimo travor, do seu dulçor, sobe o monte à beira mar, ao luar,ouve a onda sobre a areia a lacrimar ! "'Ontem ao Luar / Catullo da Paixão Cearense)
Em nome de inúmeras pessoas que assistiram a peça ,sem dúvida, parabenizo aqui, de Amir Haddad - além de Dramaturgo, Diretor - a Vera Fajardo ( quase de A a Z) ;nosso agradecimento a toda a Equipe que proporcionou-nos este encontro com a Arte Cênica. Certamente, lá da lua, também encantado e comovido, Catullo os tem aplaudido e escondidinho, piscado para Vera Fajardo, que garimpou-o
.E que Amir Haddad me perdoe( também peço segredo acerca disto que aqui uso, por ele citado), mas faço nossas as suas palavras, alterando um pouco: "Recebam Vocês, o nosso aplauso emocionado. Isto, por possibilitar que O Brasil descubra o Brasil em seu Universo Popular e porquê nossas fontes, estão vivas. Isto é obra da Arte , que este espetáculo - Espetáculo!- confirmou."
Maristela Dias da Cunha
* Meu agradecimento a Francisco Accioly e Tereza Durante, os quais tive o prazer de conhecer.
* Pós show de Oswaldo Montenegro , sublimamos , ficamos a falar somente de arte e jogamos fora
certos interesses que como disse Hugo,´ faz com que o artista entregue os pontos´.E dado a comentários posteriores pediram que eu atualizasse o artigo. Está aqui, pois.
Maristela, querida, você tem toda razão... maravilhosa é a voz deste ator (e eu não sabia que cantava tão bem!)
ResponderExcluirMúsica extremamente linda! Magnífica!
Seria ótimo mesmo se o espetáculo viesse à Uberlândia... (ainda não consigo entender pq uma cidade do porte desta dificilmente traz bons shows... uma pena).
Parabéns pela iniciativa.
Beijos
Patrícia Lara
Oi, Maristela!
ResponderExcluirMeu computador está sem som...deletaram-no involuntariamente!...
Mas não faz mal. Bebi cada palavra de seu texto, embriaguei-me do belo que ele exala e pude imaginar a beleza que, tão bem, você descreveu!...
A sua alma de poeta, apaixonada pela vida,pela verdade e pelo belo... cativou-me!
Doravante, estou seguindo "Argumentos Meus"!...
Beijos!
Bernadete Valadares _ Felixlândia - MG.
Oi,Maristela!!
ResponderExcluirFico encantada com a forma que escreve,
com certeza vou procurar este video de José Mayer cantando, e ja curiosa, rs.
beijos!
Estou em Udi e outro local a trabalho ( pesquisa ), mas relendo isto aqui é tempo
Excluirde comentar . Foi tão gentil no elogio ao textual, que não se deu o privilégio de
assistir do vídeo do José Mayer, lá mesmo.
Agradecimento e aquele abraço .
Maristela
Ontem quando vc citou , achei que seria exagero. Vc sabe que sou
ResponderExcluirdesconfiado .
Mas assino embaixo, a interpretação dele surpreende pra caramba !
Armando
Eu te entendo ,Armando. ' Quem exagera o argumento, prejudica a causa' . Mas reconsiderou, é o que interessa . Abraço.
Cara Maristela,
ResponderExcluirrealmente o ator José Mayer surpreende-nos aqui, com a interpretação do poeta e cantor Catullo e resumindo : faz com que não percamos a esperança de que a Música/Arte no Brasil ainda tem chance . É preciso trazer isto - tal riqueza - para o presente.
Grande abraço,
Carmen Maywald
Caríssima Maristela,
ResponderExcluirSua descrição do encantamento causado pela maravilhosa interpretação de José Mayer foi magnífica. É uma catarse que somente os sensíveis e apaixonados pela poesia sentem, portanto, conseguem entender do que se trata.
Realmente seria incrível se esse espetáculo viesse à Uberlândia. Voto e sou dessa torcida.
Bjus.
Juciene.
Adorei!!Quero assistir a essa peça aqui em uberlândia.Estou esperando
ResponderExcluirMaristela, seu artigo me deu muita vontade de assistir a peça! Queremos outras peças como essa, pois essa sensação me pareceu incrível. josé Mayer é excelente, e seus comentários me fez gostar ainda mais do ator.
ResponderExcluirAbraços Raquel Aguiar